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segunda-feira, novembro 18, 2013

Liesl - Capítulo 9


               Eu estava e uma carruagem seguindo uma estrada pelo meio da mata. Não conseguia olhar o lado de fora, pois a carruagem não possuía janelas, mas ouvia bem o som dos cascos dos cavalos e das rodas da carruagem passando por cima dos cascalhos da estrada. A única iluminação era a que passava pelas frestas da porta. A chuva começou a cair e então a carruagem parou. Ouvi passos se aproximando. Eles soavam secos e não como se estivessem pisando nos cascalhos que demarcavam o caminho. Abri a porta e estava tudo escuro e apesar de estar fora, a chuva não me molhava. Uma mão tocou meu braço e eu então abri meus olhos. Estava dentro daquele mesmo quarto onde acordei em meu primeiro dia naquele lugar. Alyson estava sentada ao meu lado, me olhava com feições cansadas e de preocupação. Usava ainda as roupas rasgadas e sujas de sangue, e por ver essas roupas eu pude lembrar da batalha que havia acontecido. Os passos que eu ouvi foram de Nastasia que havia entrado no quarto e se postava em pé ao lado de Alyson, também me observando com olhar de preocupação. O lugar continuava com a mesma iluminação fraca de velas, mas agora, eu conseguia ver cada canto com clareza. O cheiro de umidade estava mais forte, mas eu não sentia o frio que ela normalmente causava. Esperava sentir dores por todo meu corpo e me surpreendi quando isso não aconteceu enquanto eu me movimentava para sentar. Eu me sentia melhor do que qualquer outro dia da minha vida. Meu corpo pelo menos, pois minha mente se encontrava em completa confusão. Alyson e Nastasia me observavam sem dizer uma palavra se quer e aquele silêncio estava começando a me incomodar.
            - Como você se sente? – Alyson perguntou.
            - Bem...  Muito bem, na verdade. O que aconteceu?
            - O que você se lembra da noite passada?
            - Porque você responde minhas perguntas com mais perguntas? E, noite passada? Por quanto tempo fiquei dormindo?
            - Um dia e uma noite. O que você se lembra da noite passada?
            - Apenas sons e flashes... O que aconteceu? Eu achei que não ia sobreviver quando aquele lobo pulou para cima de mim.
            - Aquilo não era um lobo e acho que você sabe muito bem disso. – Disse Nastasia com impaciência.
            - Você não sobreviveu, Liesl. – Disse Alyson
            - O que você quer dizer com isso? Estou muito bem aqui na sua frente, não estou?
            - Quando eu cheguei até você o lobisomem tinha feito um grande estrago em seu corpo. Você tinha perdido muito sangue e estava em estado de choque. Creio que se eu tivesse demorado mais alguns minutos, não teria chego a tempo de te salvar.
           - Você esta dizendo que... – Olhei meu corpo e percebi que não tinha nenhum ferimento ou marca de agressão. – O que você fez comigo?    
            - Não pretendia fazer isso sem seu consentimento, mas para te salvar, tive que te transformar em uma de nós.
            Minha mente ficou em branco por uns momentos, e de repente, comecei a lembrar de toda a minha vida, como se um filme estivesse sendo apresentado em um grande cinema. Levantei da cama e comecei a andar pelo quarto, e sem perceber, estava despejando todos meus pensamentos em forma de gritos para quem quisesse ouvir.
            - O que te deu o direito de fazer isso? Porque você não me deixou lá para morrer de uma vez? Nada mais vai poder voltar a ser como era... Meus pais... Meus amigos... Agora estou presa a você para sempre e vou ter que esquecer tudo que aconteceu? Tudo que eu tive?...
            Enquanto eu andava e gritava, Alyson continuava sentada, olhando fixamente para a cama como se eu ainda estivesse deitada nela. Nastasia veio até mim e me segurou pelos ombros me fazendo para de andar e só assim eu pude perceber o estrago que tinha feito. O quarto estava revirado como se tivesse passado um furacão por ali. Todos os móveis estavam quebrados. A única peça inteira era a cadeira onde Alyson continuava sentada sem mover um músculo. Me desvencilhei das mãos de Nastasia e caí ajoelhada olhando para o chão desejando que tudo aquilo, todos aqueles dias, não passassem de um pesadelo sem sentido do qual eu esperava acordar logo para voltar a minha vida normal. Só quando elas saíram do quarto eu tive finalmente coragem para me mover. Levantei e comecei a tentar a arrumar o quarto. Coloquei todos os estilhaços de vidro e madeira em um canto e o colchão e a cadeira que havia sobrevivido em outro. A arrumação limpou a minha mente por alguns momentos, mas ao ver a bagunça empilhada a raiva voltou e não consegui me controlar quando saí do quarto procurando Alyson para gritar com ela novamente, mas antes que começasse ela parou na minha frente, segurou a minha mão e me levou até o lado de fora. Não pude acreditar que aquele era o mesmo bosque de antes. O cheiro das folhas secas, das árvores e até do ar era uma mistura que eu nunca antes havia sentido. Eu conseguia ver cada sulco de cada árvore com perfeição, cada veia de cada folha caída no chão e mesmo estando na escuridão da noite iluminada apenas pela luz das estrelas, eu enxergava com clareza como se estivéssemos ao Sol do meio dia de um céu sem nuvens. Sentia uma brisa gelada correr por entre as árvores mas isso não me causava frio. Sentia fraqueza e Alyson parecia saber disso mesmo sem eu dizer. Fez sinal para que eu a seguisse, e assim eu o fiz. Nossos passos mal faziam barulho ao passar por cima das folhas secas. Andamos por alguns metros e ouvi um som vindo de um pouco mais a frente. Consegui apurar um pouco a visão e vi um veado caminhando calmamente e sendo atacado por Alyson sem que percebesse. Corri para perto do veado caído no chão. Ele ainda respirava apesar do grande ferimento em seu pescoço. Vi o sangue escorrendo lentamente para o chão e então o instinto tomou conta de mim. Pulei sobre o animal e cravei minhas recém-nascidas presas em sua pele sugando seu sangue. Foi um sentimento diferente sentir que a vida de um animal estava fluindo para dentro do meu corpo, me fazendo sentir forte e indestrutível. E o sabor... Foi a melhor coisa que eu havia provado até aquele momento e nem era sangue humano. Eu ainda podia sentir seu coração pulsando quando Alyson me puxou.
            - Nunca beba até que o coração pare, pois a morte que causas pode se tornar a sua.

sexta-feira, agosto 16, 2013

Liesl - Capítulo 8


            Urros.
            Gritos.
            Medo.
            Dor.
            Queda.
            Silêncio.
            Passos.
            Movimento.
            Pontadas no pescoço.
            Frio.
            Gosto de ferro.
            Calor.
            Escuridão.

quarta-feira, agosto 14, 2013

Liesl - Capítulo 7



            A porta do alçapão fechou com um estrondo a nossas costas enquanto ela me fazia descer aos tropeços pela escada até a sala. Dei um encontrão com a mesa, e antes que pudesse me virar para confrontá-la, outras pessoas entraram no recinto. Dois homens e uma mulher, todos muito brancos e altos como ela. Um dos homens tinha cabelos pretos, enquanto o outro e a mulher eram loiros.
            - O que está acontecendo? Vocês estão bem? – O homem loiro perguntou que parecia ser o mais novo dos três perguntou.
            - Levei-a para ver sua casa e fomos atacados por um Lobo. Conseguimos correr de volta em segurança, mas temo termos sido seguidas por alguns deles.
            - Nastasia, Adrian, precisamos fazer uma ronda e garantir que eles não achem nossa casa. Vamos. – O homem loiro falou em tom de ordem para os outros dois que o seguiram em direção a escada.
            - Georg, tenha cuidado! Não sei quanto mais deles podem estar lá fora.
            - Não se preocupe Alyson, não vamos longe. – E ao dizer isso, ele e os outros dois sumiram escada acima em completo silêncio.
            Toda essa cena me deixou mais confusa com o que estava acontecendo. Eu não conseguia assimilar todos aqueles acontecimentos. Era tudo tão irreal que eu me sentia presa em um sonho sem sentido de onde não conseguia escapar. Não sabia que havia outras pessoas naquele lugar, mas a visão dela com ferimentos pelo corpo, roupas rasgadas e sujas de sangue evitou que naquele momento, qualquer curiosidade sobre aquelas pessoas passassem pela minha cabeça. Sentei-me tonta e ofegante, ainda tremendo sob efeito da adrenalina que me afetava. Ela puxou uma outra cadeira e sentou-se a minha frente. Pude ver que seus ferimentos se curavam rapidamente, e em alguns lugares eles nem mais existiam, apenas restava uma leve vermelhidão e manchas de sangue. Ela me serviu um copo de água que tomei com muito gosto, só assim percebendo que minha boca estava seca.
            - O que aconteceu lá fora. Porque fomos atacadas por aquele cachorro?
            - Aquilo não era um cachorro, Liesl, e tenho certeza de que você o viu voltando a sua forma original depois de morto. Eu sei que é tudo muito estranho, mas não somos comuns, Georg, Adrian, Nastasia, eu. Nascemos como humanos, mas fomos acolhidos por uma linhagem antiga que nos tornou diferente.
            - O que você quer dizer com isso? Como uma pessoa não pode ser humana?
            - Tenho certeza de que você sabe que, se eu fosse humana não poderia ter ganhado uma luta contra um cachorro normal, muito menos contra um lobo daquele porte. Julgando pela quantidade de livros que tinha na sua casa, imagino que já tenha lido alguma história ou lenda sobre vampiros e o que podemos fazer.
            - Mas são apenas estórias inventadas. É impossível que aquilo tudo seja verdade.
            - Nos livros somos descritos para parecermos meros personagens saídos da imaginação de um escritor criativo, mas toda lenda nasce de uma história verdadeira e se torna lenda pelas descrenças e fantasias que são acrescentados toda vez que ela é contada. Vampiros existem, mas não somos necessariamente assassinos como a literatura conta. Precisamos sim de sangue para sobreviver, e matamos apenas com o intuito de nos alimentarmos, apesar de existir muitos de nós que sentem o prazer em dilacerar gargantas.
            Era impossível para eu conseguir acreditar no que ela me dizia, e a irrealidade do momento cresceu ainda mais quando a Adrian entrou violentamente pela porta, banhado em sangue.
            - Eles nos acharam! – E ao terminar de falar, ele foi jogado contra a parede por um enorme lobo cinzento que agarrou um de seus braços com os dentes. Alyson pulou nas costas do lobo. Ela forçava a cabeça do lobo para trás para que ele soltasse Adrian, enquanto este mordia com voracidade o pescoço da fera, fazendo com que a mesma urrasse. Os três lutavam enquanto eu em pânico corri escada acima e ao chegar a o topo me deparei com Georg e Nastasia lutando com mais cinco lobos. Um dos lobos me viu. Corri o mais rápido que podia por entre as árvores, sempre ouvindo os passos do lobo que me perseguia, chegando cada vez mais perto. Olhei para trás e o vi saltando em cima de mim. Depois desse momento, tudo que eu lembro são imagens borradas e gritos.  

quinta-feira, março 07, 2013

Liesl - Capítulo 6


            O som de uma porta abrindo e em seguida, fechando. Foi isso que eu ouvi quando acordei no dia seguinte. Abri meus olhos esperando encontrar o meu quarto, com esperanças de que tudo que eu lembrava fosse um mero pesadelo estranho e sem sentido, mas encontrei novamente aquelas paredes de pedras mal cortadas. Olhei em volta e a vi sentada em uma cadeira ao lado da cama. Ela me ajudou a sentar e minha cabeça não doía mais, o cansaço havia passado, mas a preocupação continuava.
            - Sente-se melhor?
            - Sim, um pouco... Onde...
            - Fique calma. Talvez você devesse comer um pouco, e então conversaremos. Espero que esteja bom. Não estou acostumada a cozinhar. – E enquanto falava, ela pegou uma bandeja em uma mesinha e colocou ao meu lado. Nela havia uns pedaços de carne sem sal, um pouco de pão, algumas frutas e água. Só ao ver a comida, percebi que meu estômago me incomodava. Peguei um pedaço de carne e o comi, alternando com o pão e uns goles de água. Ela me observava e parecia um pouco intrigada com meu comportamento. Enquanto eu comia, ela voltou a falar.
            - Desculpe fazê-la esperar, mas não acho que um corpo cansado e faminto consiga processar informações com sanidade suficiente para entendê-las com clareza. Deve estar se perguntando por que a tenho mantido aqui, e a resposta é bem simples. Estava pela floresta quando ouvi gritos e tiros vindo de sua propriedade. Não muito depois, como eu havia dito, a vi correndo, sendo perseguida por soldados e então resolvi intervir.
            - Onde estão meus pais?
            - A essa questão, eu infelizmente não posso responder. Depois que a salvei dos soldados, tive que trazê-la para dentro para que outros não nos encontrassem. Não sei o que aconteceu em sua casa, mas sinto informar que agora está abandonada.
            Ao ouvir isso, levantei e fui até a porta. Ignorando meu estômago que roncava, tentei lembrar o caminho para fora daquele lugar. Eu precisava ir até minha casa. Precisava ver o que tinha acontecido lá e tentar encontrar alguma pista de onde estavam meus pais. Enquanto eu tentava chegar até a escada, ela se pôs a minha frente em uma velocidade impossível para um ser humano.
            - Me deixe passar! – Eu disse tentado soar firme, mas com a voz tremendo.
            - Não posso. Pelo menos não agora. Temos que esperar até que anoiteça para que eu possa abrir esta porta, e ainda temos algumas horas pela frente.
            - Não me importo que horas sejam. Me deixe sair agora. Preciso ir até minha casa. – Lágrimas começavam a sair pelos meus olhos, contrariando minha vontade de permanecer firme. Ela me abraçou forte, e passamos ali alguns minutos, paradas; eu a soluçar, até que me acalmasse. Quando consegui respirar normalmente, ela me guiou até uma cadeira e lavou meu rosto molhado por lágrimas. Ficamos paradas por um bom tempo até que consegui falar novamente.
            - Porque você está fazendo isso?
            - Como disse antes. Vi que você estava em perigo e tive que intervir. Não é certo o que eles estão fazendo. Obrigando pessoas a seguir certos tipos de pensamentos e a fazer o que não querem. Eles estavam atrás de seu pai, e você acabou sendo pega no fogo cruzado. Não é certo, mas é assim que as coisas acontecem hoje em dia.
            - Quero ver minha casa!
            - Espere que anoiteça e eu mesma a levarei até lá.
            E assim fizemos. Esperamos algumas horas, e nesse tempo eu acabei de comer, me lavei e coloquei roupas limpas que ela me deu para vestir.
            - Esta pronta? Ela me disse ao abrir a porta do quarto. Levantei-me na hora e a segui para fora. Caminhamos por um bom tempo entre as árvores. Eu não conseguia ver por onde íamos, mas parecia que ela enxergava o caminho como se estivéssemos sendo iluminadas pelo Sol do meio dia. Chegamos finalmente ao fim da floresta e pude ver minha casa. Continuei andando, mas ela me parou e pediu para que eu fizesse silêncio. Ela olhou em volta, parecendo procurar por algo, e quando finalmente se sentiu satisfeita com o que via, ela me permitiu continuar, mas devagar, em silêncio e sempre perto dela. A Lua brilhava gloriosamente no céu, o que me permitiu ver bem, assim que chegamos perto da casa, os rastros do que havia acontecido. A porta de trás estava quebrada, pendurada por uma das dobradiças que havia ficado inteira. Não conseguia pensar no que teria força para deixá-la daquele jeito. Ela entrou antes de mim, fazendo sinal para que a seguisse, e poucos passos adentro, senti um cheiro desagradável. O seguimos e me arrependi de assim termos feito. Uma das criadas de minha casa estava caída, com vermes saindo de sua boca e sangue seco em toda sua volta. Meu estômago embrulhou de imediato e tudo o que consegui fazer foi correr para um canto e colocar todo minha refeição para fora. Ela veio até mim e esperou pacientemente até que eu me sentisse bem o suficiente para continuarmos nossa expedição. Andamos pelo resto da casa e, com dificuldade, pude ver o que sobrou do que havia dentro. A maioria da mobília estava quebrada, havia buracos de balas nas paredes, mais alguns corpos caídos e ensangüentados e o cheiro que ficava mais insuportável a cada mais um passo que dávamos mais para dentro da residência. Eu tremia, parte por nervosismo e parte por estar com o estômago vazio novamente, mas tentava me controlar. Eu não havia visto tudo ainda e ia me forçar até onde podia agüentar. O escritório de meu pai estava destruído. Haviam livros jogados e rasgados por toda parte. Não parei para ver detalhes, simplesmente corri escada acima, não que eu tivesse alguma esperança em encontrar alguém vivo, pois esse pensamento havia sumido de mim ao primeiro segundo em que entrei na casa, mas porque precisava saber, precisava ver o que havia restado. No andar de cima as coisas não estavam tão ruins. Não havia o cheiro ruim, mas estava tudo revirado. Parecia que tinham revistado cada canto da casa, procurando por alguma coisa, qualquer coisa. Meu quarto estava na mesma situação, mas não agüentei vê-lo daquela forma e desabei em meu colchão que agora estava jogado no chão perto da cama quebrada. Chorei, sabe-se lá por quanto tempo e ela novamente estava lá para me consolar. Sentou ao meu lado e me segurou, esperou que meus soluços parassem.
            - Acho que já está na hora de irmos. – Ela disse ainda me segurando em seus braços. - Creio que este lugar esteja sendo vigiado e não é bom que fiquemos aqui por muito tempo. Creio que tenha algo que você queira levar daqui.
            - Não. – Disse com dificuldades em fazer minha voz sair. – Só quero ir embora. Por favor...
            - Então vamos. – Ela levantou, me fazendo repetir seu movimento.
            Fizemos o caminho de volta para a porta dos fundos e quando estávamos quase na porta, ouvimos um uivo que parecia não vir de longe. Ela parou, alerta, e eu parei logo atrás dela.
            - O que foi?
            - Silêncio! Tem alguém por perto!
            E ao dizer isso, o que parecia ser um lobo pulou pela porta a atacando. Mas ela era mais rápida e desviou e me empurrou para o lado evitando que ele também me acertasse. Ele pousou há alguns metros de distância, se virou e voltou a atacar avançando para cima dela. Foi uma luta rápida, mas feroz. Eu não podia acreditar em como uma pessoa poderia lutar com um lobo daquela forma, mas ela conseguia. Lutou bravamente e por fim, mordeu seu pescoço, largando-o no chão depois de alguns segundos. Ela virou para mim e estava banhada em sangue, e enquanto ela se aproximava, olhei o lobo no chão, mas ele não era mais um lobo. Lentamente tomava a forma de um homem.
            - Precisamos sair daqui agora! – Ela disse ao chegar perto. Eu estava em choque. Não podia acreditar no que havia acabado de acontecer bem a minha frente.
            – Vamos logo! Temos que correr. – Ela disse me segurando pelos ombros. Com um grande esforço, consegui olhar em seus olhos.
            - O que você é?
            - Conversaremos sobre isso assim que estivermos em segurança. – E ao dizer isso, ela me puxou pelo braço me fazendo correr para segurança de seu refugio o mais rápido do que minhas pernas agüentavam, deixando mais sons de uivos para trás. 

terça-feira, agosto 21, 2012

Liesl - Capítulo 5



            - Eu sei que a situação é estranha, mas espero que não se sinta desconfortável estando em um lugar diferente como este. – Ela disse, sentada a minha frente de pernas cruzadas.
            - Onde estão meus pais? – Minha voz soou confiante, mas por dentro, eu tremia como se estivesse em meio a uma nevasca. Ela parecia perceber meu nervosismo. Levantou, se aproximou e pôs uma das mãos em meu ombro.
            - Fique calma, criança. Tudo a seu tempo. Você deve repousar antes que possamos conversar sobre os acontecimentos recentes.
            Mesmo por cima da roupa, pude sentir o toque frio de sua mão. Não havia calor algum ali. Me levantei tentando mostrar autoridade e com este movimento súbito, fiz ela dar alguns passos para trás.
            - Não, eu não quero repousar. Quero saber onde estão os meus pais, quem é você e porque estou aqui.
            - Desculpe não ter me apresentado antes. Me chamo Alyson. Vi que estava em perigo na floresta e resolvi intervir. Não é certo vários soldados treinados correndo atrás de uma jovem indefesa.
            Não gostei de ter sido chamada de indefesa, mas o fato de ela ter me salvado me fez sentir menos ameaçada por estar em um local desconhecido.
            - Então aquilo não foi um sonho? Foi você quem pulou na minha frente daquele jeito?
            - Sim. Temo que se eu não houvesse intervindo, você poderia ter sido capturada, ou até morta naquele momento.
            - Mas você não estava sozinha. Eram muitos soldados. Onde estão os outros que a ajudaram?
            - Existem outros morando comigo, sim, mas naquela noite todos estavam ocupados. Só restava a mim nos arredores do bosque dos limites de sua casa.
            Era impossível não se surpreender ao ouvir aquilo. Como podia uma mulher, sozinha e tão frágil, lutar contra todos aqueles homens? Mas tive que deixar essa pergunta para uma outra hora. Ainda não sabia o que tinha acontecido aos meus pais, e para ter essa informação, tive que perguntar.
            - Meus pais. Salvou eles também?
            - Infelizmente, você foi a única que pude ajudar.
            - Onde eles estão? O que aconteceu com eles? Eu...
            - Até para alguém como eu, é difícil ajudar mais de uma pessoa de uma vez, principalmente na situação que estávamos. Você estava desmaiada e eu tinha que defender meu território para que eles não descobrissem este lugar. Então, não posso lhe dizer o que aconteceu a seus pais.
            - Então nós temos que ir atrás deles agora. Eles devem estar procurando por mim! – Tentei correr em direção a escada, mas ela parou em minha frente impedindo que eu desse mais um passo.
            - É perigoso demais sair agora.
            - Não, você não entende! Eu tenho que sair agora. Tenho que ir atrás deles. Eles estão esperando por mim. Eu... – A esse ponto eu ofegava, meu coração apertava, sentia as lágrimas chegando aos meus olhos e começando escorrer pelo meu rosto. – Eu... – Meus joelhos cederam, caí a seus pés e tentava respirar em meio aos soluços da dor que me sufocava. Ela sentou a minha frente e me abraçou, esperando pacientemente que eu me acalmasse, e quando isso aconteceu, ela me ajudou a levantar, me levou para lavar o rosto me conduziu até o recinto onde eu havia acordado.
            - Descanse agora. Amanhã, se estiver se sentindo melhor, conversaremos mais. – E ao dizer isso, saiu do quarto fechando a porta a suas costas.

quinta-feira, agosto 16, 2012

Liesl - Capítulo 4


Algumas folhas caíam e planavam por alguns segundos, brincando na brisa de que fazia os longos cabelos dela dançarem. Continuei me afastando, lentamente, de frente para ela, andando de costas, alerta a qualquer movimento que ela poderia fazer, mas ela não fez. Apenas me observava, sem ameaças em seu olhar. Meu coração me ensurdecia a cada batida que dava, ma expectativa do que poderia acontecer. Eu ofegava nervosa. Pensava apenas em correr, mas temia o que poderia acontecer se assim fizesse. Mas alguns passos para trás e ela de mexeu. A essa altura, o Sol já havia se posto por completo e eu brigava para conseguir enxergar, mas isso não impediu que a visse estendendo a mão, sem pronunciar nenhuma palavra, me convidando para entrar novamente, mas tal convite não me fez parar. Meus passos continuaram, mas foram interrompidos pelos gritos que se aproximavam pela floresta. Homens correndo, soldados, procurando alguém, procurando por mim. Como eu sabia disso, não sei como dizer. Eu apenas sabia. Talvez, todos os acontecimentos anteriores me fizessem perceber que eu havia escapado ao ataque a minha casa, e que agora, eu corria o risco de ser capturada. Não sei ao certo, e na verdade, acho que nunca vou saber. Enquanto minha cabeça girava em pensamentos para sair daquela enrascada. Os passos e gritos ficavam cada vez mais altos, então eu resolvi aceitar aquele convite. Corri, segurei a mão dela e me deixei ser puxada para dentro do alçapão, sendo, novamente, salva por ela. A portinhola bateu às minhas costas e pouco tempo depois os baques surdos de botas passando por cima dela. Não sei como não notaram que o som era diferente do chão da floresta, mas não nos acharam ali de baixo da terra. Descemos a escada as pressas e ela subiu novamente para garantir que, se achassem a porta, ela não fosse aberta. Após fazer isso, desceu novamente, se aproximou de mim e examinou minha cabeça. Eu não havia notado antes, mas tinha um curativo onde eu havia batido quando caí na floresta. Após me examinar, ela me olhou nos olhos e deu um leve sorriso. Algo nela me reconfortava. Por alguns segundos esqueci tudo o que havia acontecido e me deixei acalmar pelo olhar que ela mantinha fixo no meu. Meu corpo relaxou, e com as mãos em meus braços ela me guiou até uma cadeira, e ali me deixou para acender mais velas pelo lugar. Pude então finalmente a ver bem. Estatura mediana, pele branca, cabelos longos, ruivos e lisos até a cintura, olhos verdes. Usava um vestido preto, longo, com caimento leve, justo na cintura, mas que permitia total liberdade de movimentos. Ela puxou uma cadeira, a colocou a minha frente e sentou.
            - Espero que esteja se sentindo melhor!
           Pode parecer estranho. Mas ao ouvir a voz dela pela primeira vez, soube de imediato que a partir daquele momento, minha vida nunca mais seria a mesma.

segunda-feira, agosto 06, 2012

Liesl - Capítulo 3


            Meus olhos abriram lentamente e foi difícil conseguir distinguir algo na quase escuridão que me cercava. Sentia um sufocante cheiro de terra molhada e uma intensa sede. Me levantei e ao fazer isso, senti uma dor aguda em minha cabeça que me fez lembrar o que havia acontecido. Foi aí que o desespero começou a roubar a minha razão. Onde eu estava? Será que eu havia sido capturada? O que acontecera com meus pais? Tateei pelas paredes tentando encontrar uma saída e esbarrando em móveis e objetos que mal conseguia ver e no fim, encontrei uma porta que para minha surpresa, não estava trancada. Girei a maçaneta com cuidado, tentando fazer o mínimo de barulho possível e saí em uma sala, esta, pobremente iluminada por velas, a maioria quase no fim. As paredes eram de pedras grandes e mal cortadas, o chão de terra socada, pisoteada. A umidade era tanta que fazia minha pele se arrepiar de frio. A cada passo que dava, eu ficava mais intrigada com o lugar, mas o instinto de fugir era grande e eu não via a hora de sair dali. A fome não ajudava, e por causa dela, acabei sendo atraída para uma bandeja de frutas que me atraiu por ser tão divergente de todo o ambiente. Depois de me satisfazer de algumas pêras, pude pensar com um pouco mais de calma e ficou mais fácil de achar uma outra porta, por onde passei e me deparei com uma escada estreita com degraus pequenos, quebrados e escorregadios. Consegui subi por ela com dificuldades, principalmente porque tentava não sujar ou rasgar minhas roupas, o que foi impossível de fazer. No topo, encontrei um tampo de madeira, que forcei para cima e se revelou ser um alçapão, e ao ver folhas secas e terras caindo em mim ao abri-lo, pude perceber que antes, eu estava em um ambiente subterrâneo. Saí para a floresta que escurecia aos poucos enquanto o céu se punha e os poucos raios de Sol que conseguiam passar pelas frestas das árvores esvaeciam lentamente. Fechei a saída e comecei a caminhar para longe do lugar, e nem passos eu havia dado quando ouvi o alçapão sendo fechado novamente. Me virei assustada e pronta para lutar contra a pessoa que havia aparecido e foi então que deparei com ela. Ela que mudaria minha vida para sempre. Ela que me transformaria no que sou hoje.

segunda-feira, julho 30, 2012

Liesl - Capítulo 2

Eu havia acabado de deitar para dormir quando minha mãe entrou as pressas no quarto, dizendo para que eu me vestisse. Mexeu no meu armário, jogou umas peças de roupas quaisquer em cima de mim e saiu dizendo que tínhamos que sair da casa o mais rápido possível. Enquanto eu me vestia, ouvia batidas violentas na porta da frente da casa e vozes que gritavam chamando por meu pai. Terminei de me vestir e saí a procura de minha mãe. Parei no topo da escada e vi alguns de nossos criados tentando impedir que a porta fosse aberta a força. A confusão na casa aumentava devagar e ao mesmo tempo rápida de uma maneira que não consigo me lembrar dos detalhes. Senti um uma mão segurando com força um dos meus braços e me forçando a descer a escada, correndo, até o escritório de meu pai, e só chegando lá que percebi que era minha mãe. Ela e meu pai debatiam, falando rapidamente, discutindo o que fazer. Meu pai passou pela porta a passos rápidos e nós o seguimos. Atravessamos todo o interior da casa e quando passamos pela porta dos fundos, pude ouvir o estrondo da porta da frente sendo derrubada e muitos gritos raivosos. Começamos a correr o mais rápido que podíamos, mas antes que chegássemos aos limites de nossa propriedade, os homens que nos perseguiam nos alcançaram e tentavam impedir que continuássemos a todo custo. Vários soldados nos cercaram e nos seguraram. Eu me debatia desesperada, tentando me soltar de qualquer forma. Meus pais lutavam com todas as forças, também tentando escapar, mas de alguma forma que eu nunca descobri como, consegui me soltar. Meus pais, ao verem isso, gritaram para que eu corresse, e assim eu fiz. Corri com todas as minhas forças, o mais rápido que pude e me entranhei na floresta que beirava nosso terreno. A cada passo, ficava cada vez mais difícil manter a velocidade. O caminho ficava mais apertado, meus pés tropeçavam nas raízes, eu esbarrava nos trocos de árvores, e nada fazia com que os homens parassem de me perseguir. Ouvia passos cada vez mais perto, e em um momento de desespero, meu pé enganchou em uma raiz, me fazendo cair e bater a cabeça em um tronco. A última coisa que vi, foi um vulto negro pulando em minha frente.

quarta-feira, julho 18, 2012

Liesl - Capítulo 1


Era estranho ter o meu pai em casa o dia inteiro por vários dias seguidos, mas essa passou a ser nossa rotina depois que ele recebeu uma carta. Nunca me disseram o que estava escrito nela, mas pude ouvir ele e minha mãe em algum tipo de discussão. Depois desse dia meu pai não foi mais trabalhar. Ficava em casa, a maior parte do tempo em seu escritório mexendo em papéis, enviando cartas, telegramas. Parecia preocupado com algo. Minha mãe também. Não saía mais para seus chás da tarde, nem para nenhuma ocasião que suas amigas importantes da sociedade a convidava. Uma noite no jantar eu resolvi perguntar o porquê das coisas estarem diferentes e eles disseram que meu pai havia trabalhar diretamente de casa e minha mãe não saia para fazer companhia a ele e estar a seu dispor para qualquer coisa que ele precisasse. Não contestei essa resposta, afinal era assim que as famílias funcionavam naquela época. A esposa fazia tudo por seu marido e os filhos obedeciam sem questionar. Em pouco tempo, as coisas pareceram ficar mais tensas. Tive que parar de ir à escola e meus pais não saíam de dentro de casa nem para caminhar um pouco em nossos jardins. Os ouvi várias vezes falando em viagens, mas paravam imediatamente com o assunto quando percebiam que eu estava por perto, até que em uma tarde eles me chamaram no escritório de meu pai e me disseram que teríamos que deixar nosso país por um tempo pois Hitler queria que meu pai comandasse suas tropas. Nossa família era contra seus ideais, mas, como todos sabiam, ninguém contrariava Hitler.

terça-feira, julho 17, 2012

Liesl - Prefácio


Hoje em dia, quando penso no passado, percebo que aquele momento foi minha salvação. Se não fosse por ela... Na verdade, são tantas coisas que poderiam me ter acontecido que não consigo imaginar qual seria a pior.
Meus pais faziam tudo por mim, sabe... Nada do que aconteceu foi culpa deles. Na verdade, acho que eles ficariam felizes se me vissem agora. Vivíamos bem em nossa casa, afinal não éramos pobres. Mas nossa riqueza não impediu que fossemos afetados pela guerra. Meu pai era um importante general do exército. Nunca me intrometi nas coisas do trabalho dele. Ele estava sempre ocupado, viajava várias vezes ao ano, mas sempre estava presente em datas importantes. Já minha mãe, essa era a pessoa que eu não passava um dia sem ver. Ela fazia nossa casa funcionar. Comandava os criados, cuidava das finanças, organizava os bailes de que eu tanto gostava de participar. Eram bons pais. Nunca me deixaram faltar nada e sempre fui tratada com muito amor. Em meu aniversário de dezesseis anos, minha mãe organizou uma luxuosa festa para todos nossos conhecidos. Foi a maior festa que vi até aquela época. Um quarteto de cordas tocando as valsas que eu tanto gostava, um bolo enorme de glacê branco e flores rosa e todos com suas melhores vestes. E a decoração. Foi a melhor que ela havia planejado. Estava tudo absolutamente lindo. Perfeito. Mas, foi a última festa que ela deu. Em poucos meses, tudo mudaria para sempre.