O som de
uma porta abrindo e em seguida, fechando. Foi isso que eu ouvi quando acordei
no dia seguinte. Abri meus olhos esperando encontrar o meu quarto, com
esperanças de que tudo que eu lembrava fosse um mero pesadelo estranho e sem
sentido, mas encontrei novamente aquelas paredes de pedras mal cortadas. Olhei
em volta e a vi sentada em uma cadeira ao lado da cama. Ela me ajudou a sentar
e minha cabeça não doía mais, o cansaço havia passado, mas a preocupação
continuava.
- Sente-se
melhor?
- Sim, um
pouco... Onde...
- Fique calma.
Talvez você devesse comer um pouco, e então conversaremos. Espero que esteja
bom. Não estou acostumada a cozinhar. – E enquanto falava, ela pegou uma
bandeja em uma mesinha e colocou ao meu lado. Nela havia uns pedaços de carne
sem sal, um pouco de pão, algumas frutas e água. Só ao ver a comida, percebi
que meu estômago me incomodava. Peguei um pedaço de carne e o comi, alternando
com o pão e uns goles de água. Ela me observava e parecia um pouco intrigada
com meu comportamento. Enquanto eu comia, ela voltou a falar.
- Desculpe
fazê-la esperar, mas não acho que um corpo cansado e faminto consiga processar
informações com sanidade suficiente para entendê-las com clareza. Deve estar se
perguntando por que a tenho mantido aqui, e a resposta é bem simples. Estava
pela floresta quando ouvi gritos e tiros vindo de sua propriedade. Não muito
depois, como eu havia dito, a vi correndo, sendo perseguida por soldados e
então resolvi intervir.
- Onde
estão meus pais?
- A essa
questão, eu infelizmente não posso responder. Depois que a salvei dos soldados,
tive que trazê-la para dentro para que outros não nos encontrassem. Não sei o
que aconteceu em sua casa, mas sinto informar que agora está abandonada.
Ao ouvir isso, levantei e fui até a porta. Ignorando meu estômago que roncava, tentei lembrar o caminho para fora daquele lugar. Eu precisava ir até minha casa. Precisava ver o que tinha acontecido lá e tentar encontrar alguma pista de onde estavam meus pais. Enquanto eu tentava chegar até a escada, ela se pôs a minha frente em uma velocidade impossível para um ser humano.
Ao ouvir isso, levantei e fui até a porta. Ignorando meu estômago que roncava, tentei lembrar o caminho para fora daquele lugar. Eu precisava ir até minha casa. Precisava ver o que tinha acontecido lá e tentar encontrar alguma pista de onde estavam meus pais. Enquanto eu tentava chegar até a escada, ela se pôs a minha frente em uma velocidade impossível para um ser humano.
- Me deixe
passar! – Eu disse tentado soar firme, mas com a voz tremendo.
- Não
posso. Pelo menos não agora. Temos que esperar até que anoiteça para que eu
possa abrir esta porta, e ainda temos algumas horas pela frente.
- Não me
importo que horas sejam. Me deixe sair agora. Preciso ir até minha casa. –
Lágrimas começavam a sair pelos meus olhos, contrariando minha vontade de
permanecer firme. Ela me abraçou forte, e passamos ali alguns minutos, paradas;
eu a soluçar, até que me acalmasse. Quando consegui respirar normalmente, ela
me guiou até uma cadeira e lavou meu rosto molhado por lágrimas. Ficamos
paradas por um bom tempo até que consegui falar novamente.
- Porque
você está fazendo isso?
- Como
disse antes. Vi que você estava em perigo e tive que intervir. Não é certo o
que eles estão fazendo. Obrigando pessoas a seguir certos tipos de pensamentos
e a fazer o que não querem. Eles estavam atrás de seu pai, e você acabou sendo
pega no fogo cruzado. Não é certo, mas é assim que as coisas acontecem hoje em
dia.
- Quero ver
minha casa!
- Espere
que anoiteça e eu mesma a levarei até lá.
E assim
fizemos. Esperamos algumas horas, e nesse tempo eu acabei de comer, me lavei e
coloquei roupas limpas que ela me deu para vestir.
- Esta
pronta? Ela me disse ao abrir a porta do quarto. Levantei-me na hora e a segui
para fora. Caminhamos por um bom tempo entre as árvores. Eu não conseguia ver
por onde íamos, mas parecia que ela enxergava o caminho como se estivéssemos
sendo iluminadas pelo Sol do meio dia. Chegamos finalmente ao fim da floresta e
pude ver minha casa. Continuei andando, mas ela me parou e pediu para que eu
fizesse silêncio. Ela olhou em volta, parecendo procurar por algo, e quando finalmente
se sentiu satisfeita com o que via, ela me permitiu continuar, mas devagar, em
silêncio e sempre perto dela. A Lua brilhava gloriosamente no céu, o que me
permitiu ver bem, assim que chegamos perto da casa, os rastros do que havia
acontecido. A porta de trás estava quebrada, pendurada por uma das dobradiças
que havia ficado inteira. Não conseguia pensar no que teria força para deixá-la
daquele jeito. Ela entrou antes de mim, fazendo sinal para que a seguisse, e
poucos passos adentro, senti um cheiro desagradável. O seguimos e me arrependi
de assim termos feito. Uma das criadas de minha casa estava caída, com vermes
saindo de sua boca e sangue seco em toda sua volta. Meu estômago embrulhou de
imediato e tudo o que consegui fazer foi correr para um canto e colocar todo
minha refeição para fora. Ela veio até mim e esperou pacientemente até que eu
me sentisse bem o suficiente para continuarmos nossa expedição. Andamos pelo
resto da casa e, com dificuldade, pude ver o que sobrou do que havia dentro. A
maioria da mobília estava quebrada, havia buracos de balas nas paredes, mais
alguns corpos caídos e ensangüentados e o cheiro que ficava mais insuportável a
cada mais um passo que dávamos mais para dentro da residência. Eu tremia, parte
por nervosismo e parte por estar com o estômago vazio novamente, mas tentava me
controlar. Eu não havia visto tudo ainda e ia me forçar até onde podia
agüentar. O escritório de meu pai estava destruído. Haviam livros jogados e
rasgados por toda parte. Não parei para ver detalhes, simplesmente corri escada
acima, não que eu tivesse alguma esperança em encontrar alguém vivo, pois esse
pensamento havia sumido de mim ao primeiro segundo em que entrei na casa, mas
porque precisava saber, precisava ver o que havia restado. No andar de cima as
coisas não estavam tão ruins. Não havia o cheiro ruim, mas estava tudo
revirado. Parecia que tinham revistado cada canto da casa, procurando por
alguma coisa, qualquer coisa. Meu quarto estava na mesma situação, mas não
agüentei vê-lo daquela forma e desabei em meu colchão que agora estava jogado
no chão perto da cama quebrada. Chorei, sabe-se lá por quanto tempo e ela
novamente estava lá para me consolar. Sentou ao meu lado e me segurou, esperou
que meus soluços parassem.
- Acho que
já está na hora de irmos. – Ela disse ainda me segurando em seus braços. - Creio
que este lugar esteja sendo vigiado e não é bom que fiquemos aqui por muito
tempo. Creio que tenha algo que você queira levar daqui.
- Não. –
Disse com dificuldades em fazer minha voz sair. – Só quero ir embora. Por
favor...
- Então
vamos. – Ela levantou, me fazendo repetir seu movimento.
Fizemos o
caminho de volta para a porta dos fundos e quando estávamos quase na porta,
ouvimos um uivo que parecia não vir de longe. Ela parou, alerta, e eu parei
logo atrás dela.
- O que
foi?
- Silêncio!
Tem alguém por perto!
E ao dizer
isso, o que parecia ser um lobo pulou pela porta a atacando. Mas ela era mais
rápida e desviou e me empurrou para o lado evitando que ele também me
acertasse. Ele pousou há alguns metros de distância, se virou e voltou a atacar
avançando para cima dela. Foi uma luta rápida, mas feroz. Eu não podia
acreditar em como uma pessoa poderia lutar com um lobo daquela forma, mas ela
conseguia. Lutou bravamente e por fim, mordeu seu pescoço, largando-o no chão
depois de alguns segundos. Ela virou para mim e estava banhada em sangue, e
enquanto ela se aproximava, olhei o lobo no chão, mas ele não era mais um lobo.
Lentamente tomava a forma de um homem.
-
Precisamos sair daqui agora! – Ela disse ao chegar perto. Eu estava em choque.
Não podia acreditar no que havia acabado de acontecer bem a minha frente.
– Vamos
logo! Temos que correr. – Ela disse me segurando pelos ombros. Com um grande
esforço, consegui olhar em seus olhos.
- O que
você é?
-
Conversaremos sobre isso assim que estivermos em segurança. – E ao dizer isso,
ela me puxou pelo braço me fazendo correr para segurança de seu refugio o mais
rápido do que minhas pernas agüentavam, deixando mais sons de uivos para trás.

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