segunda-feira, novembro 18, 2013

Liesl - Capítulo 9


               Eu estava e uma carruagem seguindo uma estrada pelo meio da mata. Não conseguia olhar o lado de fora, pois a carruagem não possuía janelas, mas ouvia bem o som dos cascos dos cavalos e das rodas da carruagem passando por cima dos cascalhos da estrada. A única iluminação era a que passava pelas frestas da porta. A chuva começou a cair e então a carruagem parou. Ouvi passos se aproximando. Eles soavam secos e não como se estivessem pisando nos cascalhos que demarcavam o caminho. Abri a porta e estava tudo escuro e apesar de estar fora, a chuva não me molhava. Uma mão tocou meu braço e eu então abri meus olhos. Estava dentro daquele mesmo quarto onde acordei em meu primeiro dia naquele lugar. Alyson estava sentada ao meu lado, me olhava com feições cansadas e de preocupação. Usava ainda as roupas rasgadas e sujas de sangue, e por ver essas roupas eu pude lembrar da batalha que havia acontecido. Os passos que eu ouvi foram de Nastasia que havia entrado no quarto e se postava em pé ao lado de Alyson, também me observando com olhar de preocupação. O lugar continuava com a mesma iluminação fraca de velas, mas agora, eu conseguia ver cada canto com clareza. O cheiro de umidade estava mais forte, mas eu não sentia o frio que ela normalmente causava. Esperava sentir dores por todo meu corpo e me surpreendi quando isso não aconteceu enquanto eu me movimentava para sentar. Eu me sentia melhor do que qualquer outro dia da minha vida. Meu corpo pelo menos, pois minha mente se encontrava em completa confusão. Alyson e Nastasia me observavam sem dizer uma palavra se quer e aquele silêncio estava começando a me incomodar.
            - Como você se sente? – Alyson perguntou.
            - Bem...  Muito bem, na verdade. O que aconteceu?
            - O que você se lembra da noite passada?
            - Porque você responde minhas perguntas com mais perguntas? E, noite passada? Por quanto tempo fiquei dormindo?
            - Um dia e uma noite. O que você se lembra da noite passada?
            - Apenas sons e flashes... O que aconteceu? Eu achei que não ia sobreviver quando aquele lobo pulou para cima de mim.
            - Aquilo não era um lobo e acho que você sabe muito bem disso. – Disse Nastasia com impaciência.
            - Você não sobreviveu, Liesl. – Disse Alyson
            - O que você quer dizer com isso? Estou muito bem aqui na sua frente, não estou?
            - Quando eu cheguei até você o lobisomem tinha feito um grande estrago em seu corpo. Você tinha perdido muito sangue e estava em estado de choque. Creio que se eu tivesse demorado mais alguns minutos, não teria chego a tempo de te salvar.
           - Você esta dizendo que... – Olhei meu corpo e percebi que não tinha nenhum ferimento ou marca de agressão. – O que você fez comigo?    
            - Não pretendia fazer isso sem seu consentimento, mas para te salvar, tive que te transformar em uma de nós.
            Minha mente ficou em branco por uns momentos, e de repente, comecei a lembrar de toda a minha vida, como se um filme estivesse sendo apresentado em um grande cinema. Levantei da cama e comecei a andar pelo quarto, e sem perceber, estava despejando todos meus pensamentos em forma de gritos para quem quisesse ouvir.
            - O que te deu o direito de fazer isso? Porque você não me deixou lá para morrer de uma vez? Nada mais vai poder voltar a ser como era... Meus pais... Meus amigos... Agora estou presa a você para sempre e vou ter que esquecer tudo que aconteceu? Tudo que eu tive?...
            Enquanto eu andava e gritava, Alyson continuava sentada, olhando fixamente para a cama como se eu ainda estivesse deitada nela. Nastasia veio até mim e me segurou pelos ombros me fazendo para de andar e só assim eu pude perceber o estrago que tinha feito. O quarto estava revirado como se tivesse passado um furacão por ali. Todos os móveis estavam quebrados. A única peça inteira era a cadeira onde Alyson continuava sentada sem mover um músculo. Me desvencilhei das mãos de Nastasia e caí ajoelhada olhando para o chão desejando que tudo aquilo, todos aqueles dias, não passassem de um pesadelo sem sentido do qual eu esperava acordar logo para voltar a minha vida normal. Só quando elas saíram do quarto eu tive finalmente coragem para me mover. Levantei e comecei a tentar a arrumar o quarto. Coloquei todos os estilhaços de vidro e madeira em um canto e o colchão e a cadeira que havia sobrevivido em outro. A arrumação limpou a minha mente por alguns momentos, mas ao ver a bagunça empilhada a raiva voltou e não consegui me controlar quando saí do quarto procurando Alyson para gritar com ela novamente, mas antes que começasse ela parou na minha frente, segurou a minha mão e me levou até o lado de fora. Não pude acreditar que aquele era o mesmo bosque de antes. O cheiro das folhas secas, das árvores e até do ar era uma mistura que eu nunca antes havia sentido. Eu conseguia ver cada sulco de cada árvore com perfeição, cada veia de cada folha caída no chão e mesmo estando na escuridão da noite iluminada apenas pela luz das estrelas, eu enxergava com clareza como se estivéssemos ao Sol do meio dia de um céu sem nuvens. Sentia uma brisa gelada correr por entre as árvores mas isso não me causava frio. Sentia fraqueza e Alyson parecia saber disso mesmo sem eu dizer. Fez sinal para que eu a seguisse, e assim eu o fiz. Nossos passos mal faziam barulho ao passar por cima das folhas secas. Andamos por alguns metros e ouvi um som vindo de um pouco mais a frente. Consegui apurar um pouco a visão e vi um veado caminhando calmamente e sendo atacado por Alyson sem que percebesse. Corri para perto do veado caído no chão. Ele ainda respirava apesar do grande ferimento em seu pescoço. Vi o sangue escorrendo lentamente para o chão e então o instinto tomou conta de mim. Pulei sobre o animal e cravei minhas recém-nascidas presas em sua pele sugando seu sangue. Foi um sentimento diferente sentir que a vida de um animal estava fluindo para dentro do meu corpo, me fazendo sentir forte e indestrutível. E o sabor... Foi a melhor coisa que eu havia provado até aquele momento e nem era sangue humano. Eu ainda podia sentir seu coração pulsando quando Alyson me puxou.
            - Nunca beba até que o coração pare, pois a morte que causas pode se tornar a sua.

terça-feira, outubro 29, 2013

Esquecimento



Era uma vez uma garota;
E então ela morreu.
Alguns ficaram tristes;
Outros chocados;
E outros se recusavam a acreditar.
Eles foram ao funeral;
Choraram;
Contaram histórias;
Falaram coisas boas sobre ela;
Mesmo que fossem mentiras.
Porque quando alguém morre, vira bom;
Quando alguém morre, vira santo.
Enterraram o corpo;
E então com suas lágrimas, foram para suas casas.
Passaram-se alguns dias;
E uns ainda choravam;
Ainda estavam tristes.
O tempo ia passando
E aos poucos as pessoas iam esquecendo;
Até que no final;
Ninguém lembrava mais.
Foi como se ela nunca estivesse lá.
Foi como se ela nunca tivesse vivido.

Silêncio

          Ela estava sentada em um dos bancos da praia. Virada em direção ao mar, abraçando as pernas, apoiando o queixo nos joelhos e olhando para o nada. Um homem se aproximou. Um marginalzinho qualquer sedento por algo que pudesse trocar por drogas. "Passa o celular" - ele disse levantando um pouco da camisa para mostrar a arma em sua cintura. Ela não respondeu. Continuou na mesma posição com o olhar vidrado em direção ao mar sem ver nada. Ele chutou o banco e disse - "Não me ouviu? Passa o celular!". "Não tenho" - ela respondeu sem se mover. "Tá louca, mina? Passa logo essa droga se não tu morre!". "Então me mata! Atira" - Ela disse enquanto levantava e o encarava de perto. "Não tem coragem? Pega logo essa arma e me mata!". Ela então surpreendeu o ladrão tirando a arma de sua cintura. "Se não vai me matar então porque ameaçou?" - Ela apontou a arma para sua própria cabeça. "Você pode não ter coragem, mas eu tenho". - Apertou o gatilho. O bandido, surpreso, fugiu correndo o máximo que podia. O corpo dela, durante a queda bateu no banco que o fez girar e a fez ficar com o rosto virado para o chão com a arma ainda em sua mão. O sangue jorrava do ferimento, manchando as pedras portuguesas que pavimentavam a calçada e escorria até a areia levando assim toda a dor. Tudo o que restou foi silêncio.

quinta-feira, outubro 10, 2013

Suicide Note



O detetive chegou e não precisou investigar o caso. 
- Encontramos esta carta perto do corpo, senhor. Foi suicídio.

"Talvez seja fácil para vocês viverem com suas decisões, suas vidas, querendo ou não que elas sejam do jeito que são. Vocês já se conformaram que é assim que tem que ser e é assim que sempre será. Cada um faz o que pode para mascarar suas vontades e se encaixar no que aparece pela frente. Mas não são todos que conseguem viver assim e eu me encaixo no meio desses outros. Tentei me conformar, me encaixar como todos fazem, mas não deu certo. Não consigo aceitar que nunca terei nada que desejei, que nunca poderei chegar perto de ter a vida que sonhei ou de fazer algo que eu realmente gosto de fazer. Abri a mão de muita coisa na minha vida. Desisti de uma educação, desisti do que eu mais amava pra tentar sobreviver ao mundo, mas o mundo não quis colaborar com meus esforços e resolveu me por no chão mais uma vez . Acontece que chega uma hora que não temos mais forças de continuar, e me vejo nessa situação agora. Peço perdão a todos que terão raiva pelo ato que cometerei assim que acabar de escrever essa carta, mas finalmente resolvi aceitar e dizer que desisto. Tentei o máximo que pude, mas meu corpo e minha mente estão cansados e não consigo mais ter vontade de passar mais um dia sendo sufocada pela dor do meu fracasso. Me desculpem, mas para mim, acabou."

sexta-feira, agosto 16, 2013

Liesl - Capítulo 8


            Urros.
            Gritos.
            Medo.
            Dor.
            Queda.
            Silêncio.
            Passos.
            Movimento.
            Pontadas no pescoço.
            Frio.
            Gosto de ferro.
            Calor.
            Escuridão.

quarta-feira, agosto 14, 2013

Liesl - Capítulo 7



            A porta do alçapão fechou com um estrondo a nossas costas enquanto ela me fazia descer aos tropeços pela escada até a sala. Dei um encontrão com a mesa, e antes que pudesse me virar para confrontá-la, outras pessoas entraram no recinto. Dois homens e uma mulher, todos muito brancos e altos como ela. Um dos homens tinha cabelos pretos, enquanto o outro e a mulher eram loiros.
            - O que está acontecendo? Vocês estão bem? – O homem loiro perguntou que parecia ser o mais novo dos três perguntou.
            - Levei-a para ver sua casa e fomos atacados por um Lobo. Conseguimos correr de volta em segurança, mas temo termos sido seguidas por alguns deles.
            - Nastasia, Adrian, precisamos fazer uma ronda e garantir que eles não achem nossa casa. Vamos. – O homem loiro falou em tom de ordem para os outros dois que o seguiram em direção a escada.
            - Georg, tenha cuidado! Não sei quanto mais deles podem estar lá fora.
            - Não se preocupe Alyson, não vamos longe. – E ao dizer isso, ele e os outros dois sumiram escada acima em completo silêncio.
            Toda essa cena me deixou mais confusa com o que estava acontecendo. Eu não conseguia assimilar todos aqueles acontecimentos. Era tudo tão irreal que eu me sentia presa em um sonho sem sentido de onde não conseguia escapar. Não sabia que havia outras pessoas naquele lugar, mas a visão dela com ferimentos pelo corpo, roupas rasgadas e sujas de sangue evitou que naquele momento, qualquer curiosidade sobre aquelas pessoas passassem pela minha cabeça. Sentei-me tonta e ofegante, ainda tremendo sob efeito da adrenalina que me afetava. Ela puxou uma outra cadeira e sentou-se a minha frente. Pude ver que seus ferimentos se curavam rapidamente, e em alguns lugares eles nem mais existiam, apenas restava uma leve vermelhidão e manchas de sangue. Ela me serviu um copo de água que tomei com muito gosto, só assim percebendo que minha boca estava seca.
            - O que aconteceu lá fora. Porque fomos atacadas por aquele cachorro?
            - Aquilo não era um cachorro, Liesl, e tenho certeza de que você o viu voltando a sua forma original depois de morto. Eu sei que é tudo muito estranho, mas não somos comuns, Georg, Adrian, Nastasia, eu. Nascemos como humanos, mas fomos acolhidos por uma linhagem antiga que nos tornou diferente.
            - O que você quer dizer com isso? Como uma pessoa não pode ser humana?
            - Tenho certeza de que você sabe que, se eu fosse humana não poderia ter ganhado uma luta contra um cachorro normal, muito menos contra um lobo daquele porte. Julgando pela quantidade de livros que tinha na sua casa, imagino que já tenha lido alguma história ou lenda sobre vampiros e o que podemos fazer.
            - Mas são apenas estórias inventadas. É impossível que aquilo tudo seja verdade.
            - Nos livros somos descritos para parecermos meros personagens saídos da imaginação de um escritor criativo, mas toda lenda nasce de uma história verdadeira e se torna lenda pelas descrenças e fantasias que são acrescentados toda vez que ela é contada. Vampiros existem, mas não somos necessariamente assassinos como a literatura conta. Precisamos sim de sangue para sobreviver, e matamos apenas com o intuito de nos alimentarmos, apesar de existir muitos de nós que sentem o prazer em dilacerar gargantas.
            Era impossível para eu conseguir acreditar no que ela me dizia, e a irrealidade do momento cresceu ainda mais quando a Adrian entrou violentamente pela porta, banhado em sangue.
            - Eles nos acharam! – E ao terminar de falar, ele foi jogado contra a parede por um enorme lobo cinzento que agarrou um de seus braços com os dentes. Alyson pulou nas costas do lobo. Ela forçava a cabeça do lobo para trás para que ele soltasse Adrian, enquanto este mordia com voracidade o pescoço da fera, fazendo com que a mesma urrasse. Os três lutavam enquanto eu em pânico corri escada acima e ao chegar a o topo me deparei com Georg e Nastasia lutando com mais cinco lobos. Um dos lobos me viu. Corri o mais rápido que podia por entre as árvores, sempre ouvindo os passos do lobo que me perseguia, chegando cada vez mais perto. Olhei para trás e o vi saltando em cima de mim. Depois desse momento, tudo que eu lembro são imagens borradas e gritos.