Sabe quando está tudo uma porcaria? Quando você se sente na completa merda? É, é meio nesse estado que eu estava quando tudo aconteceu. Depois de ter passado semana após semana mofando em casa sem fazer nada de produtivo e revezando a minha atenção entre a televisão e o computador (isso sem contar às vezes em que eu usava o computador enquanto assistia televisão) eu senti certa noite que precisava de um pouco de ar puro. Ou um pouco de poluição recém saída dos escapamentos, já que moro em uma cidade e ar puro é praticamente impossível de se achar por aqui. Saí de casa em direção à praia. Andei um pouco pelo calçadão e depois sentei em um banco para olhar o mar e as poucas estrelas que conseguiam aparecer em meio às luzes da civilização. Estava tão distraída que não vi quando ele sentou ao meu lado. Um cara até que bonito. Cabelos curtos e castanhos escuro, usava jeans e uma camisa social coberta por uma interessante jaqueta surrada. Ele começou a falar, mas não era assunto tipo “conversa de fila de super mercado”, na verdade o que ele falava era até interessante, e convenhamos, se eu, a “Sra.-Odeio-Falar-Com-Estranhos, estou falando isso, pode ter certeza que ele realmente dizia algo que merecia a minha atenção. Acabei me perdendo em suas palavras inteligentes, e assim que ele me olhou, me hipnotizei com seu olhar profundo e intrigante. Não sei ao certo como aconteceu, mas quando percebi estávamos envolvidos em um longo beijo. Não conseguia entender como a pele dele podia ser tão fria mesmo estando coberta pela pesada jaqueta em uma noite quente de verão. Me deixei ser levada pelo momento, e senti algo arranhando a pele do meu pescoço. Uma dor se veio seguida de um prazer inexplicável. Era como eletricidade passando por todo meu corpo, e então, tudo escureceu. E isso é tudo que consigo lembrar daquela noite.
Não sei que horas eram, mas acordei como se estivesse de ressaca apesar de não lembrar de ter bebido álcool na noite anterior. Abri os olhos percebi que não estava na minha casa. Apesar de o quarto estar em completa escuridão, eu conseguia enxergar muito bem. Era meio como usar aqueles óculos para visão noturna, só que eu conseguia ver as cores de tudo, mas em menos intensidade do que se estivesse com alguma luz acesa. Me levantei e senti meu corpo doer. Quarto estranho e escuro, ressaca, dor, a primeira coisa que me veio à cabeça foi: sequestro. Corri até a porta sentindo o estômago reclamar de fome e só aí eu percebi o gosto estranho de ferro na minha boca. Abri a porta com cuidado, mas a maçaneta acabou saindo na minha mão. “Talvez ela já estivesse quebrada antes”, eu pensei. A luz do corredor atingiu meus olhos com ferocidade. Olhei para fora do quarto e como não vi ninguém, saí bem devagar me esgueirando pelas paredes e cantos tentando não fazer nenhum barulho. Desci as escadas para uma ampla sala bem mobiliada e equipada com bastante tecnologia. Bom, fazendo a contagem: uma casa com andares, mobílias caras, televisões e computadores de última linha, ta bem, não era um sequestro, mas eu continuava sem entender como eu tinha ido parar naquele lugar, mas ainda assim, eu sentia uma grande necessidade de sair dali o mais rápido possível. Corri em direção à porta, mas no meio do caminho um cheiro chamou a minha atenção, e quando eu percebi meus pés me levavam na direção de onde o aroma vinha. Acabei chegando na cozinha, onde encontrei, em cima da bancada uma caneca. Nem pensei em ver o que tinha dentro, apenas a peguei e bebi o líquido. Acho que nunca havia bebido algo tão gostoso antes. A textura, o sabor e o aroma, tudo em uma combinação perfeita de algo que eu não conseguia descobrir o que era, mas que me levava ao mais alto êxtase de satisfação. Mal eu sabia que aquela maravilhosa bebida seria a única coisa com a qual eu me alimentaria pelo resto de minha existência. A bebida descia quente pela minha garganta e parecia fluir pelo meu corpo. O prazer era tão grande que não percebi quando ele chegou perto de mim. E quando digo “ele”, me refiro ao mesmo cara bonito de jaqueta surrada que tinha sentado ao meu lado no banco da praia na noite anterior, só que agora ele não usava mais a jaqueta e a camisa estava aberta mostrando seu físico digamos que, admirável. Ele não parecia ameaçador, mas eu não conseguia me sentir a vontade estando na casa de uma pessoa que eu havia conhecido na noite anterior e que eu tinha acabado de lembrar, eu não sabia seu nome.
- Sabe, a primeira vez que você se alimenta você nunca esquece... – Ele disse me olhando com curiosidade.
- O que você quer dizer com isso? – Eu disse intrigada com o que ele tinha acabado de dizer.
- Como você está se sentindo? – Ele perguntou ignorando a minha pergunta.
- Quem é você e porque eu estou aqui com você? – Eu perguntei sem responder sua pergunta.
- Só achei que seria melhor você vir pra cá do que ficar em qualquer outro lugar e passar por tudo isso sozinha. Sabe, não é uma experiência muito legal se você não tem quem te explique toda a situação.
- Situação?
- É, sabe mudanças não são fáceis, ainda mais quando você não sabe pelo que esperar.
- Quer parar de enrolar e me dizer logo que merda está acontecendo aqui?
- Hum... Acho melhor você se alimentar mais um pouco antes da gente falar sobre isso. – E dizendo isso, ele pegou a caneca da minha mão, foi até a geladeira, a encheu mais com o líquido mágico e a colocou para esquentar por uns segundos no microondas. Enquanto a caneca rodava na bandeja do aparelho ele me olhava de uma maneira intrigante e divertida, como se me achasse engraçada ou algo assim.
- Quem é você afinal? – Eu perguntei na mesma hora que o microondas apitava avisando o final do processo.
- Creio que isto não seja importante por hora. Pegue. – Ele disse me dando a caneca com o líquido recém esquentado. – Beba devagar! Eu sei que você está com fome, mas não faz bem se alimentar com pressa. Sente-se, temos muito sobre o que conversar. – E dizendo isso ele apontou para uma banqueta e nos sentamos cada um de um lado da ilha no meio da cozinha. Pensando bem, acho que foi uma boa maneira de começar minha nova vida. Pensando bem, tudo isso poderia ter sido bem traumático se tivesse acontecido de outra maneira.
- O que? – Eu não podia acreditar no que ele estava me dizendo. Aquilo tudo só podia ser uma brincadeira! Era impossível que fosse verdade. – Ah, ta legal. Você vai ficar inventando estórias, tudo bem então. – E falando isso eu me levantei e andei em direção à saída.
- Se eu fosse você eu não sairia... Sabe, ainda tem muito que você precisa aprender, e passar por isso sozinha não é uma boa idéia. Você ainda não tem noção do que pode fazer agora que nasceu novamente.
- Nasci novamente? Quem você acha que é, um médico que me salvou de uma situação de quase morte? Por favor, pare de besteiras e me deixe ir embora!
- Infelizmente não posso fazer isso. Olha, eu sei que tudo isso parece loucura, tudo está diferente para você agora e eu sei como isso pode ser assustador, mas com o tempo eu garanto que você vai aceitar a realidade e vai me deixar ajudá-la.
Me sentei na banqueta novamente ao ouvir o que ele dissera. Realmente tudo estava diferente. Eu me sentia diferente. Mais forte, mais inteligente, mas mesmo depois de ter ouvido a explicação, eu não conseguia entender porque aquilo estava acontecendo comigo. Porque eu? Eu tinha tantas coisas na minha cabeça que nem conseguia falar. As palavras zuniam no meu cérebro formando tantas perguntas que eu nem sabia por onde começar.
- Está mais calma? – Ele perguntou depois de eu ter ficado tanto tempo em silêncio. – Ainda está com fome?
Acenei a cabeça positivamente e então ele se levantou para esquentar mais alimento para mim. Depois de canecas e mais canecas do líquido maravilhoso acompanhadas pela conversa mais estranha que eu tive na vinha vida eu finalmente me senti satisfeita. Tantas coisas haviam acontecido que eu ainda estava tonta com a quantidade de informações novas. Mal eu sabia que ainda teria muito que aprender sobre essa nova vida. Depois de beber cada gota que havia na caneca, a abaixei e acabei batendo com ela na bancada com força demais e ela acabou se despedaçando na minha mão.
- Tudo bem, então... O que fazemos agora?
- Bom, já está amanhecendo, então eu aconselho que você volte a seu quarto descanse bastante, e dependendo de como se sentir amanhã, nós começaremos com seus aprendizados. – E dizendo isso ele se levantou sinalizando a porta da cozinha para a sala. – Vamos? Vou te mostrar suas acomodações.
Me levantei e o segui pela casa. Subimos as escadas e chegamos a um quarto no andar de cima, o mesmo quarto em que eu tinha acordado.
- Creio que já conheça um pouco do quarto.
- Bem, na verdade eu não prestei atenção antes... – Eu disse. Na verdade eu não tinha nem olhado pro quarto. Tudo que eu pensava quando eu acordei, era em uma maneira de sair dali o mais rápido possível. Mas agora que as luzes estavam acesas e eu estava bem alimentada e calma, pude ver que o quarto era muito bonito. Móveis em madeira escura e tecidos da colcha e das cortinas em seda nas cores vinho e champagne. Uma linda e enorme cama com docel com cortinas combinando com a decoração e um maravilhoso colchão de molas e travesseiros de penas para completar. Em um armário antigo que combinava perfeitamente com o resto do quarto, e dentro tinha umas peças de roupas para eu vestir.
- Você que decorou o quarto? – Perguntei por curiosidade.
- Foi.
- E o resto da casa?
- Também, por quê?
- Nada... Só acho estranho um homem com um senso de decoração tão bom.
Ele olhou para mim girando os olhos. Não pude deixar de rir de uma reação tão humana quanto aquela.
- Bom, se já parou de gracinha, vou deixá-la para que descanse. Durma bem, Eliza!
- Hey, como você sabe meu nome?
E ignorando minha pergunta, ele saiu do quarto e fechou a porta que continuava com a maçaneta quebrada. Fui até o grande banheiro branco anexado ao meu quarto, tomei uma ducha rápida e me vesti com um pijama que encontrei no armário, que por acaso, servia perfeitamente em mim. Deitei na cama e me enfiei de baixo do maravilhoso edredom de penas de ganso. Esse cara podia ser estranho, mas ele definitivamente sabia como criar um quarto com perfeição. Mesmo com muita coisa na mente, assim que me aconcheguei, meu corpo relaxou, meus olhos ficaram pesados e dormi quase que imediatamente. Agora, só restava esperar pelo dia, quero dizer, pela noite seguinte.
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Como assim?! Muitooo bommmm! Escreve bem hein... A descrição dos dialógos.. O colocar no pensar ao descrever cada detalhe... Muito bom!
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