terça-feira, janeiro 08, 2019
Facas
O que eles não viam era o rastro de sangue que escorria pelas feridas causado pelas facas fincadas em suas costas.
sexta-feira, agosto 29, 2014
Vazio
Katheryn
levava sua vida de forma tranquila. Acordava todas as manhãs, ia para o
trabalho, saía com os amigos, viajava sempre que possível... Vivia como todos
que conhecia viviam. Mas aos poucos isso foi mudando. Ela foi mudando. Ela foi
perdendo o gosto pela vida. Mas isso não a tornou uma pessoa amargurada. Por
fora, ela parecia sempre a mesma. Conversava com todos, mantinha o seu humor
habitual, ria das piadas, porém por dentro começou a existir um vazio. Ele
começou pequeno, quase despercebido. Katheryn foi perdendo a vontade de sair,
de se socializar. A cada dia ela se isolava mais um pouco. A cada dia, um “bom dia”
era deixado de ser dito e passava despercebido. E o vazio sempre crescia. Aos
poucos consumia toda a vontade que ela tinha. Com o passar do tempo, ela
lentamente começou a sair de casa apenas para trabalhar. Passava seus finais de
semana trancada em seu apartamento sem falar com ninguém, ignorando a
existência de um mundo externo às paredes que a rodeavam. Se entretia lendo,
assistia muitos filmes, até se atrevia a desenhar e pintar, mas nada a fazia
ter vontade de sair. Não sentia mais prazer em nada que fizesse. Sentia o mundo
frio e queria ficar longe dele. Logo tudo começou a perder as cores. Ela via
tudo em tons de cinza, opaco e não sentia falta das cores. Nem reparava que o
mundo aos seus olhos havia mudado. O Sol não esquentava sua pele, a Lua não
iluminava suas noites. Até que chegou o dia em que o vazio a havia consumido
por inteiro. Ela já não sentia nada. Cumpria seus deveres de forma impecável,
mas supria apenas as necessidades de seu corpo. Comia, bebia, dormia. E era só
o que precisava. Não vivia, apenas existia. E assim ela continuou até o fim dos
seus dias. Cinza. Vazia.
segunda-feira, novembro 18, 2013
Liesl - Capítulo 9
Eu estava e uma carruagem seguindo uma estrada pelo meio da mata. Não conseguia olhar o lado de fora, pois a carruagem não possuía janelas, mas ouvia bem o som dos cascos dos cavalos e das rodas da carruagem passando por cima dos cascalhos da estrada. A única iluminação era a que passava pelas frestas da porta. A chuva começou a cair e então a carruagem parou. Ouvi passos se aproximando. Eles soavam secos e não como se estivessem pisando nos cascalhos que demarcavam o caminho. Abri a porta e estava tudo escuro e apesar de estar fora, a chuva não me molhava. Uma mão tocou meu braço e eu então abri meus olhos. Estava dentro daquele mesmo quarto onde acordei em meu primeiro dia naquele lugar. Alyson estava sentada ao meu lado, me olhava com feições cansadas e de preocupação. Usava ainda as roupas rasgadas e sujas de sangue, e por ver essas roupas eu pude lembrar da batalha que havia acontecido. Os passos que eu ouvi foram de Nastasia que havia entrado no quarto e se postava em pé ao lado de Alyson, também me observando com olhar de preocupação. O lugar continuava com a mesma iluminação fraca de velas, mas agora, eu conseguia ver cada canto com clareza. O cheiro de umidade estava mais forte, mas eu não sentia o frio que ela normalmente causava. Esperava sentir dores por todo meu corpo e me surpreendi quando isso não aconteceu enquanto eu me movimentava para sentar. Eu me sentia melhor do que qualquer outro dia da minha vida. Meu corpo pelo menos, pois minha mente se encontrava em completa confusão. Alyson e Nastasia me observavam sem dizer uma palavra se quer e aquele silêncio estava começando a me incomodar.
- Como você
se sente? – Alyson perguntou.
- Bem... Muito bem, na verdade. O que aconteceu?
- O que
você se lembra da noite passada?
- Porque
você responde minhas perguntas com mais perguntas? E, noite passada? Por quanto
tempo fiquei dormindo?
- Um dia e
uma noite. O que você se lembra da noite passada?
- Apenas sons e flashes... O que
aconteceu? Eu achei que não ia sobreviver quando aquele lobo pulou para cima de
mim.
- Aquilo
não era um lobo e acho que você sabe muito bem disso. – Disse Nastasia com
impaciência.
- Você não
sobreviveu, Liesl. – Disse Alyson
- O que
você quer dizer com isso? Estou muito bem aqui na sua frente, não estou?
- Quando eu
cheguei até você o lobisomem tinha feito um grande estrago em seu corpo. Você
tinha perdido muito sangue e estava em estado de choque. Creio que se eu
tivesse demorado mais alguns minutos, não teria chego a tempo de te salvar.
- Você esta
dizendo que... – Olhei meu corpo e percebi que não tinha nenhum ferimento ou
marca de agressão. – O que você fez comigo?
- Não
pretendia fazer isso sem seu consentimento, mas para te salvar, tive que te
transformar em uma de nós.
Minha mente
ficou em branco por uns momentos, e de repente, comecei a lembrar de toda a
minha vida, como se um filme estivesse sendo apresentado em um grande cinema. Levantei
da cama e comecei a andar pelo quarto, e sem perceber, estava despejando todos
meus pensamentos em forma de gritos para quem quisesse ouvir.
- O que te
deu o direito de fazer isso? Porque você não me deixou lá para morrer de uma
vez? Nada mais vai poder voltar a ser como era... Meus pais... Meus amigos...
Agora estou presa a você para sempre e vou ter que esquecer tudo que aconteceu?
Tudo que eu tive?...
Enquanto eu
andava e gritava, Alyson continuava sentada, olhando fixamente para a cama como
se eu ainda estivesse deitada nela. Nastasia veio até mim e me segurou pelos ombros
me fazendo para de andar e só assim eu pude perceber o estrago que tinha feito.
O quarto estava revirado como se tivesse passado um furacão por ali. Todos os
móveis estavam quebrados. A única peça inteira era a cadeira onde Alyson
continuava sentada sem mover um músculo. Me desvencilhei das mãos de Nastasia e
caí ajoelhada olhando para o chão desejando que tudo aquilo, todos aqueles
dias, não passassem de um pesadelo sem sentido do qual eu esperava acordar logo
para voltar a minha vida normal. Só quando elas saíram do quarto eu tive
finalmente coragem para me mover. Levantei e comecei a tentar a arrumar o
quarto. Coloquei todos os estilhaços de vidro e madeira em um canto e o colchão
e a cadeira que havia sobrevivido em outro. A arrumação limpou a minha mente
por alguns momentos, mas ao ver a bagunça empilhada a raiva voltou e não
consegui me controlar quando saí do quarto procurando Alyson para gritar com
ela novamente, mas antes que começasse ela parou na minha frente, segurou a
minha mão e me levou até o lado de fora. Não pude acreditar que aquele era o
mesmo bosque de antes. O cheiro das folhas secas, das árvores e até do ar era
uma mistura que eu nunca antes havia sentido. Eu conseguia ver cada sulco de
cada árvore com perfeição, cada veia de cada folha caída no chão e mesmo
estando na escuridão da noite iluminada apenas pela luz das estrelas, eu
enxergava com clareza como se estivéssemos ao Sol do meio dia de um céu sem nuvens.
Sentia uma brisa gelada correr por entre as árvores mas isso não me causava
frio. Sentia fraqueza e Alyson parecia saber disso mesmo sem eu dizer. Fez
sinal para que eu a seguisse, e assim eu o fiz. Nossos passos mal faziam
barulho ao passar por cima das folhas secas. Andamos por alguns metros e ouvi
um som vindo de um pouco mais a frente. Consegui apurar um pouco a visão e vi um
veado caminhando calmamente e sendo atacado por Alyson sem que percebesse.
Corri para perto do veado caído no chão. Ele ainda respirava apesar do grande
ferimento em seu pescoço. Vi o sangue escorrendo lentamente para o chão e então
o instinto tomou conta de mim. Pulei sobre o animal e cravei minhas recém-nascidas
presas em sua pele sugando seu sangue. Foi um sentimento diferente sentir que a
vida de um animal estava fluindo para dentro do meu corpo, me fazendo sentir
forte e indestrutível. E o sabor... Foi a melhor coisa que eu havia provado até
aquele momento e nem era sangue humano. Eu ainda podia sentir seu coração
pulsando quando Alyson me puxou.
- Nunca beba até que o coração pare,
pois a morte que causas pode se tornar a sua.
terça-feira, outubro 29, 2013
Esquecimento
Era uma vez uma garota;
E então ela morreu.
Alguns ficaram tristes;
Outros chocados;
E outros se recusavam a acreditar.
Eles foram ao funeral;
Eles foram ao funeral;
Choraram;
Contaram histórias;
Contaram histórias;
Falaram coisas boas sobre ela;
Mesmo que fossem mentiras.
Porque quando alguém morre, vira bom;
Quando alguém morre, vira santo.
Enterraram o corpo;
E então com suas lágrimas, foram para suas casas.
Passaram-se alguns dias;
E uns ainda choravam;
Ainda estavam tristes.
O tempo ia passando
E aos poucos as pessoas iam esquecendo;
Até que no final;
Ninguém lembrava mais.
Foi como se ela nunca estivesse lá.
Foi como se ela nunca tivesse vivido.
Porque quando alguém morre, vira bom;
Quando alguém morre, vira santo.
Enterraram o corpo;
E então com suas lágrimas, foram para suas casas.
Passaram-se alguns dias;
E uns ainda choravam;
Ainda estavam tristes.
O tempo ia passando
E aos poucos as pessoas iam esquecendo;
Até que no final;
Ninguém lembrava mais.
Foi como se ela nunca estivesse lá.
Foi como se ela nunca tivesse vivido.
Silêncio
Ela estava sentada em um dos bancos da praia. Virada em direção ao mar, abraçando as pernas, apoiando o queixo nos joelhos e olhando para o nada. Um homem se aproximou. Um marginalzinho qualquer sedento por algo que pudesse trocar por drogas. "Passa o celular" - ele disse levantando um pouco da camisa para mostrar a arma em sua cintura. Ela não respondeu. Continuou na mesma posição com o olhar vidrado em direção ao mar sem ver nada. Ele chutou o banco e disse - "Não me ouviu? Passa o celular!". "Não tenho" - ela respondeu sem se mover. "Tá louca, mina? Passa logo essa droga se não tu morre!". "Então me mata! Atira" - Ela disse enquanto levantava e o encarava de perto. "Não tem coragem? Pega logo essa arma e me mata!". Ela então surpreendeu o ladrão tirando a arma de sua cintura. "Se não vai me matar então porque ameaçou?" - Ela apontou a arma para sua própria cabeça. "Você pode não ter coragem, mas eu tenho". - Apertou o gatilho. O bandido, surpreso, fugiu correndo o máximo que podia. O corpo dela, durante a queda bateu no banco que o fez girar e a fez ficar com o rosto virado para o chão com a arma ainda em sua mão. O sangue jorrava do ferimento, manchando as pedras portuguesas que pavimentavam a calçada e escorria até a areia levando assim toda a dor. Tudo o que restou foi silêncio.
quinta-feira, outubro 10, 2013
Suicide Note
O detetive chegou e não precisou investigar o caso.
- Encontramos esta carta perto do corpo, senhor. Foi suicídio.
"Talvez seja fácil para
vocês viverem com suas decisões, suas vidas, querendo ou não que elas sejam do
jeito que são. Vocês já se conformaram que é assim que tem que ser e é assim
que sempre será. Cada um faz o que pode para mascarar suas vontades e se encaixar no
que aparece pela frente. Mas não são todos que conseguem viver assim e eu me
encaixo no meio desses outros. Tentei me conformar, me
encaixar como todos fazem, mas não deu certo. Não consigo aceitar que nunca
terei nada que desejei, que nunca poderei chegar perto de ter a vida que sonhei
ou de fazer algo que eu realmente gosto de fazer. Abri a mão de muita coisa na
minha vida. Desisti de uma educação, desisti do que eu mais amava pra tentar
sobreviver ao mundo, mas o mundo não quis colaborar com meus esforços e
resolveu me por no chão mais uma vez . Acontece que chega uma hora que não
temos mais forças de continuar, e me vejo nessa situação agora. Peço perdão a todos que terão raiva pelo ato que cometerei assim que acabar de escrever essa carta, mas finalmente resolvi aceitar e dizer que desisto. Tentei o máximo que pude, mas meu corpo e minha mente estão cansados e não consigo mais ter vontade de passar mais um dia sendo sufocada pela dor do meu fracasso. Me desculpem, mas para mim, acabou."
Assinar:
Comentários (Atom)
