sexta-feira, agosto 29, 2014

Vazio



                Katheryn levava sua vida de forma tranquila. Acordava todas as manhãs, ia para o trabalho, saía com os amigos, viajava sempre que possível... Vivia como todos que conhecia viviam. Mas aos poucos isso foi mudando. Ela foi mudando. Ela foi perdendo o gosto pela vida. Mas isso não a tornou uma pessoa amargurada. Por fora, ela parecia sempre a mesma. Conversava com todos, mantinha o seu humor habitual, ria das piadas, porém por dentro começou a existir um vazio. Ele começou pequeno, quase despercebido. Katheryn foi perdendo a vontade de sair, de se socializar. A cada dia ela se isolava mais um pouco. A cada dia, um “bom dia” era deixado de ser dito e passava despercebido. E o vazio sempre crescia. Aos poucos consumia toda a vontade que ela tinha. Com o passar do tempo, ela lentamente começou a sair de casa apenas para trabalhar. Passava seus finais de semana trancada em seu apartamento sem falar com ninguém, ignorando a existência de um mundo externo às paredes que a rodeavam. Se entretia lendo, assistia muitos filmes, até se atrevia a desenhar e pintar, mas nada a fazia ter vontade de sair. Não sentia mais prazer em nada que fizesse. Sentia o mundo frio e queria ficar longe dele. Logo tudo começou a perder as cores. Ela via tudo em tons de cinza, opaco e não sentia falta das cores. Nem reparava que o mundo aos seus olhos havia mudado. O Sol não esquentava sua pele, a Lua não iluminava suas noites. Até que chegou o dia em que o vazio a havia consumido por inteiro. Ela já não sentia nada. Cumpria seus deveres de forma impecável, mas supria apenas as necessidades de seu corpo. Comia, bebia, dormia. E era só o que precisava. Não vivia, apenas existia. E assim ela continuou até o fim dos seus dias. Cinza. Vazia.