terça-feira, outubro 29, 2013

Esquecimento



Era uma vez uma garota;
E então ela morreu.
Alguns ficaram tristes;
Outros chocados;
E outros se recusavam a acreditar.
Eles foram ao funeral;
Choraram;
Contaram histórias;
Falaram coisas boas sobre ela;
Mesmo que fossem mentiras.
Porque quando alguém morre, vira bom;
Quando alguém morre, vira santo.
Enterraram o corpo;
E então com suas lágrimas, foram para suas casas.
Passaram-se alguns dias;
E uns ainda choravam;
Ainda estavam tristes.
O tempo ia passando
E aos poucos as pessoas iam esquecendo;
Até que no final;
Ninguém lembrava mais.
Foi como se ela nunca estivesse lá.
Foi como se ela nunca tivesse vivido.

Silêncio

          Ela estava sentada em um dos bancos da praia. Virada em direção ao mar, abraçando as pernas, apoiando o queixo nos joelhos e olhando para o nada. Um homem se aproximou. Um marginalzinho qualquer sedento por algo que pudesse trocar por drogas. "Passa o celular" - ele disse levantando um pouco da camisa para mostrar a arma em sua cintura. Ela não respondeu. Continuou na mesma posição com o olhar vidrado em direção ao mar sem ver nada. Ele chutou o banco e disse - "Não me ouviu? Passa o celular!". "Não tenho" - ela respondeu sem se mover. "Tá louca, mina? Passa logo essa droga se não tu morre!". "Então me mata! Atira" - Ela disse enquanto levantava e o encarava de perto. "Não tem coragem? Pega logo essa arma e me mata!". Ela então surpreendeu o ladrão tirando a arma de sua cintura. "Se não vai me matar então porque ameaçou?" - Ela apontou a arma para sua própria cabeça. "Você pode não ter coragem, mas eu tenho". - Apertou o gatilho. O bandido, surpreso, fugiu correndo o máximo que podia. O corpo dela, durante a queda bateu no banco que o fez girar e a fez ficar com o rosto virado para o chão com a arma ainda em sua mão. O sangue jorrava do ferimento, manchando as pedras portuguesas que pavimentavam a calçada e escorria até a areia levando assim toda a dor. Tudo o que restou foi silêncio.

quinta-feira, outubro 10, 2013

Suicide Note



O detetive chegou e não precisou investigar o caso. 
- Encontramos esta carta perto do corpo, senhor. Foi suicídio.

"Talvez seja fácil para vocês viverem com suas decisões, suas vidas, querendo ou não que elas sejam do jeito que são. Vocês já se conformaram que é assim que tem que ser e é assim que sempre será. Cada um faz o que pode para mascarar suas vontades e se encaixar no que aparece pela frente. Mas não são todos que conseguem viver assim e eu me encaixo no meio desses outros. Tentei me conformar, me encaixar como todos fazem, mas não deu certo. Não consigo aceitar que nunca terei nada que desejei, que nunca poderei chegar perto de ter a vida que sonhei ou de fazer algo que eu realmente gosto de fazer. Abri a mão de muita coisa na minha vida. Desisti de uma educação, desisti do que eu mais amava pra tentar sobreviver ao mundo, mas o mundo não quis colaborar com meus esforços e resolveu me por no chão mais uma vez . Acontece que chega uma hora que não temos mais forças de continuar, e me vejo nessa situação agora. Peço perdão a todos que terão raiva pelo ato que cometerei assim que acabar de escrever essa carta, mas finalmente resolvi aceitar e dizer que desisto. Tentei o máximo que pude, mas meu corpo e minha mente estão cansados e não consigo mais ter vontade de passar mais um dia sendo sufocada pela dor do meu fracasso. Me desculpem, mas para mim, acabou."