quinta-feira, março 07, 2013

Liesl - Capítulo 6


            O som de uma porta abrindo e em seguida, fechando. Foi isso que eu ouvi quando acordei no dia seguinte. Abri meus olhos esperando encontrar o meu quarto, com esperanças de que tudo que eu lembrava fosse um mero pesadelo estranho e sem sentido, mas encontrei novamente aquelas paredes de pedras mal cortadas. Olhei em volta e a vi sentada em uma cadeira ao lado da cama. Ela me ajudou a sentar e minha cabeça não doía mais, o cansaço havia passado, mas a preocupação continuava.
            - Sente-se melhor?
            - Sim, um pouco... Onde...
            - Fique calma. Talvez você devesse comer um pouco, e então conversaremos. Espero que esteja bom. Não estou acostumada a cozinhar. – E enquanto falava, ela pegou uma bandeja em uma mesinha e colocou ao meu lado. Nela havia uns pedaços de carne sem sal, um pouco de pão, algumas frutas e água. Só ao ver a comida, percebi que meu estômago me incomodava. Peguei um pedaço de carne e o comi, alternando com o pão e uns goles de água. Ela me observava e parecia um pouco intrigada com meu comportamento. Enquanto eu comia, ela voltou a falar.
            - Desculpe fazê-la esperar, mas não acho que um corpo cansado e faminto consiga processar informações com sanidade suficiente para entendê-las com clareza. Deve estar se perguntando por que a tenho mantido aqui, e a resposta é bem simples. Estava pela floresta quando ouvi gritos e tiros vindo de sua propriedade. Não muito depois, como eu havia dito, a vi correndo, sendo perseguida por soldados e então resolvi intervir.
            - Onde estão meus pais?
            - A essa questão, eu infelizmente não posso responder. Depois que a salvei dos soldados, tive que trazê-la para dentro para que outros não nos encontrassem. Não sei o que aconteceu em sua casa, mas sinto informar que agora está abandonada.
            Ao ouvir isso, levantei e fui até a porta. Ignorando meu estômago que roncava, tentei lembrar o caminho para fora daquele lugar. Eu precisava ir até minha casa. Precisava ver o que tinha acontecido lá e tentar encontrar alguma pista de onde estavam meus pais. Enquanto eu tentava chegar até a escada, ela se pôs a minha frente em uma velocidade impossível para um ser humano.
            - Me deixe passar! – Eu disse tentado soar firme, mas com a voz tremendo.
            - Não posso. Pelo menos não agora. Temos que esperar até que anoiteça para que eu possa abrir esta porta, e ainda temos algumas horas pela frente.
            - Não me importo que horas sejam. Me deixe sair agora. Preciso ir até minha casa. – Lágrimas começavam a sair pelos meus olhos, contrariando minha vontade de permanecer firme. Ela me abraçou forte, e passamos ali alguns minutos, paradas; eu a soluçar, até que me acalmasse. Quando consegui respirar normalmente, ela me guiou até uma cadeira e lavou meu rosto molhado por lágrimas. Ficamos paradas por um bom tempo até que consegui falar novamente.
            - Porque você está fazendo isso?
            - Como disse antes. Vi que você estava em perigo e tive que intervir. Não é certo o que eles estão fazendo. Obrigando pessoas a seguir certos tipos de pensamentos e a fazer o que não querem. Eles estavam atrás de seu pai, e você acabou sendo pega no fogo cruzado. Não é certo, mas é assim que as coisas acontecem hoje em dia.
            - Quero ver minha casa!
            - Espere que anoiteça e eu mesma a levarei até lá.
            E assim fizemos. Esperamos algumas horas, e nesse tempo eu acabei de comer, me lavei e coloquei roupas limpas que ela me deu para vestir.
            - Esta pronta? Ela me disse ao abrir a porta do quarto. Levantei-me na hora e a segui para fora. Caminhamos por um bom tempo entre as árvores. Eu não conseguia ver por onde íamos, mas parecia que ela enxergava o caminho como se estivéssemos sendo iluminadas pelo Sol do meio dia. Chegamos finalmente ao fim da floresta e pude ver minha casa. Continuei andando, mas ela me parou e pediu para que eu fizesse silêncio. Ela olhou em volta, parecendo procurar por algo, e quando finalmente se sentiu satisfeita com o que via, ela me permitiu continuar, mas devagar, em silêncio e sempre perto dela. A Lua brilhava gloriosamente no céu, o que me permitiu ver bem, assim que chegamos perto da casa, os rastros do que havia acontecido. A porta de trás estava quebrada, pendurada por uma das dobradiças que havia ficado inteira. Não conseguia pensar no que teria força para deixá-la daquele jeito. Ela entrou antes de mim, fazendo sinal para que a seguisse, e poucos passos adentro, senti um cheiro desagradável. O seguimos e me arrependi de assim termos feito. Uma das criadas de minha casa estava caída, com vermes saindo de sua boca e sangue seco em toda sua volta. Meu estômago embrulhou de imediato e tudo o que consegui fazer foi correr para um canto e colocar todo minha refeição para fora. Ela veio até mim e esperou pacientemente até que eu me sentisse bem o suficiente para continuarmos nossa expedição. Andamos pelo resto da casa e, com dificuldade, pude ver o que sobrou do que havia dentro. A maioria da mobília estava quebrada, havia buracos de balas nas paredes, mais alguns corpos caídos e ensangüentados e o cheiro que ficava mais insuportável a cada mais um passo que dávamos mais para dentro da residência. Eu tremia, parte por nervosismo e parte por estar com o estômago vazio novamente, mas tentava me controlar. Eu não havia visto tudo ainda e ia me forçar até onde podia agüentar. O escritório de meu pai estava destruído. Haviam livros jogados e rasgados por toda parte. Não parei para ver detalhes, simplesmente corri escada acima, não que eu tivesse alguma esperança em encontrar alguém vivo, pois esse pensamento havia sumido de mim ao primeiro segundo em que entrei na casa, mas porque precisava saber, precisava ver o que havia restado. No andar de cima as coisas não estavam tão ruins. Não havia o cheiro ruim, mas estava tudo revirado. Parecia que tinham revistado cada canto da casa, procurando por alguma coisa, qualquer coisa. Meu quarto estava na mesma situação, mas não agüentei vê-lo daquela forma e desabei em meu colchão que agora estava jogado no chão perto da cama quebrada. Chorei, sabe-se lá por quanto tempo e ela novamente estava lá para me consolar. Sentou ao meu lado e me segurou, esperou que meus soluços parassem.
            - Acho que já está na hora de irmos. – Ela disse ainda me segurando em seus braços. - Creio que este lugar esteja sendo vigiado e não é bom que fiquemos aqui por muito tempo. Creio que tenha algo que você queira levar daqui.
            - Não. – Disse com dificuldades em fazer minha voz sair. – Só quero ir embora. Por favor...
            - Então vamos. – Ela levantou, me fazendo repetir seu movimento.
            Fizemos o caminho de volta para a porta dos fundos e quando estávamos quase na porta, ouvimos um uivo que parecia não vir de longe. Ela parou, alerta, e eu parei logo atrás dela.
            - O que foi?
            - Silêncio! Tem alguém por perto!
            E ao dizer isso, o que parecia ser um lobo pulou pela porta a atacando. Mas ela era mais rápida e desviou e me empurrou para o lado evitando que ele também me acertasse. Ele pousou há alguns metros de distância, se virou e voltou a atacar avançando para cima dela. Foi uma luta rápida, mas feroz. Eu não podia acreditar em como uma pessoa poderia lutar com um lobo daquela forma, mas ela conseguia. Lutou bravamente e por fim, mordeu seu pescoço, largando-o no chão depois de alguns segundos. Ela virou para mim e estava banhada em sangue, e enquanto ela se aproximava, olhei o lobo no chão, mas ele não era mais um lobo. Lentamente tomava a forma de um homem.
            - Precisamos sair daqui agora! – Ela disse ao chegar perto. Eu estava em choque. Não podia acreditar no que havia acabado de acontecer bem a minha frente.
            – Vamos logo! Temos que correr. – Ela disse me segurando pelos ombros. Com um grande esforço, consegui olhar em seus olhos.
            - O que você é?
            - Conversaremos sobre isso assim que estivermos em segurança. – E ao dizer isso, ela me puxou pelo braço me fazendo correr para segurança de seu refugio o mais rápido do que minhas pernas agüentavam, deixando mais sons de uivos para trás.