terça-feira, agosto 21, 2012

Liesl - Capítulo 5



            - Eu sei que a situação é estranha, mas espero que não se sinta desconfortável estando em um lugar diferente como este. – Ela disse, sentada a minha frente de pernas cruzadas.
            - Onde estão meus pais? – Minha voz soou confiante, mas por dentro, eu tremia como se estivesse em meio a uma nevasca. Ela parecia perceber meu nervosismo. Levantou, se aproximou e pôs uma das mãos em meu ombro.
            - Fique calma, criança. Tudo a seu tempo. Você deve repousar antes que possamos conversar sobre os acontecimentos recentes.
            Mesmo por cima da roupa, pude sentir o toque frio de sua mão. Não havia calor algum ali. Me levantei tentando mostrar autoridade e com este movimento súbito, fiz ela dar alguns passos para trás.
            - Não, eu não quero repousar. Quero saber onde estão os meus pais, quem é você e porque estou aqui.
            - Desculpe não ter me apresentado antes. Me chamo Alyson. Vi que estava em perigo na floresta e resolvi intervir. Não é certo vários soldados treinados correndo atrás de uma jovem indefesa.
            Não gostei de ter sido chamada de indefesa, mas o fato de ela ter me salvado me fez sentir menos ameaçada por estar em um local desconhecido.
            - Então aquilo não foi um sonho? Foi você quem pulou na minha frente daquele jeito?
            - Sim. Temo que se eu não houvesse intervindo, você poderia ter sido capturada, ou até morta naquele momento.
            - Mas você não estava sozinha. Eram muitos soldados. Onde estão os outros que a ajudaram?
            - Existem outros morando comigo, sim, mas naquela noite todos estavam ocupados. Só restava a mim nos arredores do bosque dos limites de sua casa.
            Era impossível não se surpreender ao ouvir aquilo. Como podia uma mulher, sozinha e tão frágil, lutar contra todos aqueles homens? Mas tive que deixar essa pergunta para uma outra hora. Ainda não sabia o que tinha acontecido aos meus pais, e para ter essa informação, tive que perguntar.
            - Meus pais. Salvou eles também?
            - Infelizmente, você foi a única que pude ajudar.
            - Onde eles estão? O que aconteceu com eles? Eu...
            - Até para alguém como eu, é difícil ajudar mais de uma pessoa de uma vez, principalmente na situação que estávamos. Você estava desmaiada e eu tinha que defender meu território para que eles não descobrissem este lugar. Então, não posso lhe dizer o que aconteceu a seus pais.
            - Então nós temos que ir atrás deles agora. Eles devem estar procurando por mim! – Tentei correr em direção a escada, mas ela parou em minha frente impedindo que eu desse mais um passo.
            - É perigoso demais sair agora.
            - Não, você não entende! Eu tenho que sair agora. Tenho que ir atrás deles. Eles estão esperando por mim. Eu... – A esse ponto eu ofegava, meu coração apertava, sentia as lágrimas chegando aos meus olhos e começando escorrer pelo meu rosto. – Eu... – Meus joelhos cederam, caí a seus pés e tentava respirar em meio aos soluços da dor que me sufocava. Ela sentou a minha frente e me abraçou, esperando pacientemente que eu me acalmasse, e quando isso aconteceu, ela me ajudou a levantar, me levou para lavar o rosto me conduziu até o recinto onde eu havia acordado.
            - Descanse agora. Amanhã, se estiver se sentindo melhor, conversaremos mais. – E ao dizer isso, saiu do quarto fechando a porta a suas costas.

quinta-feira, agosto 16, 2012

Liesl - Capítulo 4


Algumas folhas caíam e planavam por alguns segundos, brincando na brisa de que fazia os longos cabelos dela dançarem. Continuei me afastando, lentamente, de frente para ela, andando de costas, alerta a qualquer movimento que ela poderia fazer, mas ela não fez. Apenas me observava, sem ameaças em seu olhar. Meu coração me ensurdecia a cada batida que dava, ma expectativa do que poderia acontecer. Eu ofegava nervosa. Pensava apenas em correr, mas temia o que poderia acontecer se assim fizesse. Mas alguns passos para trás e ela de mexeu. A essa altura, o Sol já havia se posto por completo e eu brigava para conseguir enxergar, mas isso não impediu que a visse estendendo a mão, sem pronunciar nenhuma palavra, me convidando para entrar novamente, mas tal convite não me fez parar. Meus passos continuaram, mas foram interrompidos pelos gritos que se aproximavam pela floresta. Homens correndo, soldados, procurando alguém, procurando por mim. Como eu sabia disso, não sei como dizer. Eu apenas sabia. Talvez, todos os acontecimentos anteriores me fizessem perceber que eu havia escapado ao ataque a minha casa, e que agora, eu corria o risco de ser capturada. Não sei ao certo, e na verdade, acho que nunca vou saber. Enquanto minha cabeça girava em pensamentos para sair daquela enrascada. Os passos e gritos ficavam cada vez mais altos, então eu resolvi aceitar aquele convite. Corri, segurei a mão dela e me deixei ser puxada para dentro do alçapão, sendo, novamente, salva por ela. A portinhola bateu às minhas costas e pouco tempo depois os baques surdos de botas passando por cima dela. Não sei como não notaram que o som era diferente do chão da floresta, mas não nos acharam ali de baixo da terra. Descemos a escada as pressas e ela subiu novamente para garantir que, se achassem a porta, ela não fosse aberta. Após fazer isso, desceu novamente, se aproximou de mim e examinou minha cabeça. Eu não havia notado antes, mas tinha um curativo onde eu havia batido quando caí na floresta. Após me examinar, ela me olhou nos olhos e deu um leve sorriso. Algo nela me reconfortava. Por alguns segundos esqueci tudo o que havia acontecido e me deixei acalmar pelo olhar que ela mantinha fixo no meu. Meu corpo relaxou, e com as mãos em meus braços ela me guiou até uma cadeira, e ali me deixou para acender mais velas pelo lugar. Pude então finalmente a ver bem. Estatura mediana, pele branca, cabelos longos, ruivos e lisos até a cintura, olhos verdes. Usava um vestido preto, longo, com caimento leve, justo na cintura, mas que permitia total liberdade de movimentos. Ela puxou uma cadeira, a colocou a minha frente e sentou.
            - Espero que esteja se sentindo melhor!
           Pode parecer estranho. Mas ao ouvir a voz dela pela primeira vez, soube de imediato que a partir daquele momento, minha vida nunca mais seria a mesma.

segunda-feira, agosto 06, 2012

Liesl - Capítulo 3


            Meus olhos abriram lentamente e foi difícil conseguir distinguir algo na quase escuridão que me cercava. Sentia um sufocante cheiro de terra molhada e uma intensa sede. Me levantei e ao fazer isso, senti uma dor aguda em minha cabeça que me fez lembrar o que havia acontecido. Foi aí que o desespero começou a roubar a minha razão. Onde eu estava? Será que eu havia sido capturada? O que acontecera com meus pais? Tateei pelas paredes tentando encontrar uma saída e esbarrando em móveis e objetos que mal conseguia ver e no fim, encontrei uma porta que para minha surpresa, não estava trancada. Girei a maçaneta com cuidado, tentando fazer o mínimo de barulho possível e saí em uma sala, esta, pobremente iluminada por velas, a maioria quase no fim. As paredes eram de pedras grandes e mal cortadas, o chão de terra socada, pisoteada. A umidade era tanta que fazia minha pele se arrepiar de frio. A cada passo que dava, eu ficava mais intrigada com o lugar, mas o instinto de fugir era grande e eu não via a hora de sair dali. A fome não ajudava, e por causa dela, acabei sendo atraída para uma bandeja de frutas que me atraiu por ser tão divergente de todo o ambiente. Depois de me satisfazer de algumas pêras, pude pensar com um pouco mais de calma e ficou mais fácil de achar uma outra porta, por onde passei e me deparei com uma escada estreita com degraus pequenos, quebrados e escorregadios. Consegui subi por ela com dificuldades, principalmente porque tentava não sujar ou rasgar minhas roupas, o que foi impossível de fazer. No topo, encontrei um tampo de madeira, que forcei para cima e se revelou ser um alçapão, e ao ver folhas secas e terras caindo em mim ao abri-lo, pude perceber que antes, eu estava em um ambiente subterrâneo. Saí para a floresta que escurecia aos poucos enquanto o céu se punha e os poucos raios de Sol que conseguiam passar pelas frestas das árvores esvaeciam lentamente. Fechei a saída e comecei a caminhar para longe do lugar, e nem passos eu havia dado quando ouvi o alçapão sendo fechado novamente. Me virei assustada e pronta para lutar contra a pessoa que havia aparecido e foi então que deparei com ela. Ela que mudaria minha vida para sempre. Ela que me transformaria no que sou hoje.