domingo, janeiro 02, 2011

Latas e garrafas

Latas e garrafas passavam pelas mãos dela naquela noite, e todas eram dispensadas vazias alguns minutos depois. Ela não se importava com o mal que aquilo faria horas depois, ela não se importava com nada, com mais nada. Falava com todos que conhecia, sempre com bom humor e um sorriso no rosto, escondendo tudo o que pensava e sentia como sempre fez, até que em certa hora o gatilho foi acionado. Ela tinha uma coisa em mente, mas mesmo seu desejo de auto-destruição a impedia de agir. Foi uma pena ela não estar em um lugar alto aquela noite, a queda teria sido a coisa mais divertida que ela teria feito. Após algumas trocas de palavras com pessoas conhecidas, ela sentou no canteiro do jardim permitindo então que toda aquela bebida fizesse efeito em sua mente como sempre acontece quando dela excede seus limites. As lágrimas vieram trazendo com elas todo o peso de uma vida. Toda a dor que ela carregava agora era despejada nos ombros de um velho amigo. Alguns conhecidos paravam para perguntar se tudo estava bem, mas a preocupação alheia para ela soava como uma brisa passageira que logo é esquecida. Ela se deitou na grama esperando que a tontura passasse ou pelo menos diminuísse. Algum tempo depois, lhe passaram um telefone, e ela falou com a pessoa que estava na outra linha, mentindo que estava tudo bem. Começaram a falar em levá-la em casa, mas ela nem ao menos conseguia ficar sentada e levantar, mesmo com auxílio, lhe parecia algo impossível de se fazer. Seu corpo estava tão relaxado e confortável naquela grama que dentro dela não existia a mínima vontade de sair de lá. Tudo que ela queria naquele momento era permanecer deitada, sozinha no meio da multidão sentindo as singelas gotas de chuva que ocasionalmente caiam em seu rosto. Finalmente, depois de muita insistência, conseguiram que ela levantasse e a acompanharam até o carro de um amigo que a levaria para casa. Ela se despediu de quem a carregava, entrou no carro explicando ao motorista que caminho ele deveria seguir. Ela se despediu com um sorriso programado no rosto, saltou do carro e entrou em casa indo direto para sua devida cama. O dia amanheceu e como esperado, ela acordou sentindo todos os sintomas da noite que havia passado. Ela se desculpou por seus atos com as poucas pessoas que possui contato, mas a verdade é que ela não se importava. Seu único arrependimento era ter sobrevivido a aquela noite.

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